segunda-feira, 8 de maio de 2006

O carro de bois na poesia cearense - Por Jeremias Catunda / Ipueiras


Uma das figuras que muito honra a magistratura do Ceará, o nobre e culto amigo, doutor Antônio Nirson Monteiro, diz no início do seu erudito trabalho literário "Achega sentimental para sua memória" : "O carro de bois, veículo rústico de tração animal de antigo uso nas mais diversas civilizações, foi o primeiro grande contributo para a economia brasileira lado a lado com o braço escravo. Esteve presente nos quatro pontos cardeais do Brasil, desde a mais remota data colonial até os dias de hoje".
No vigor dos nossos 12-14 anos, década de 1930, Ipueiras, como as demais pequenas cidades do interior, era sulcada o dia inteiro pelas possantes rodas de madeira dos "chorosos" carros de bois, veículo rústico que atendia os reclamos do comércio e até servia para transportar pessoas nos dias de festas, casamentos, para os sítios da periferia ou para a zona rural. Carros com mesas feitas de grossas tábuas de angico, o cambão da mesma madeira, uns longos para duas juntas de bois, outros menores para uma junta ; as rodas eram especialmente feitas de pau-d'arco, para maior resistência e bem oleadas com extrato de mamona para o gemido característico que fazia vez de buzina e levava também muita saudade aos que na época iam virar o mundo, deixando o interior.
Nas noites enluaradas, o carro de bois ao longe, distante quilômetros até já era ouvido nos ermos das estradas do sertão, gemendo aos gritos dos carreiros, quando não entoando cantigas nativas, loas como : Vai vai "Mandingueiro" / Vai vai Azulão / Vai meu carro ligeiro / Vai rei do sertão ...
O serviço do carro de boi em nossa terra foi de muita utilidade em anos remotos, se levarmos em conta que hoje está praticamente "aposentado", pois muito raramente ainda se vê um trabalhando. Para a estação ferroviária (agora desativada) por onde no passado era transportada a produção do município, milho, feijão, mamona, algodão, oiticica, e de onde se traziam as mercadorias para a cidade, distava do Centro quase um quilometro a mais e havia um alto que exigia muito sacrifício das juntas de bois puxando os enormes pranchões ladeira acima.
Recordamo-nos ainda dos carros do Cesário Capeta, Vicente Lúcio (Carnaúbas), Inácio Rufino (Vamos-Ver), Raimundo Alexandre (Estação), Raimundo Victor e Zé Galdino. Quando rodavam só dentro das ruas era uma festa para a meninada, principalmente no fim das aulas. E se por azar se pegasse um carreiro zangado, quase sempre "queimado" da branquinha, o chiqueirador cantava bonito e vez por outra éramos alcançados pela ponta do relho. Tempo bom de muita saudade ... *PC*


Texto publicado originalmente em 2001 no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

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