sábado, 22 de abril de 2006

O Jumento do Maurício / Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Maurício você que gosta,
Tanto de prosear,
Vou contar uma história,
Não sei se vai gostar.
Foi o nego de Maria,
Que contou pra eu escutar.

Só sei que esse episódio,
Num instante se espalhou.
Do dono envergonhado,
E do jumento vingador.
Eu só estou relatando,
O que o nego me contou.

Este caso que eu conto,
Em Ipueiras se deu.
Lá pras banda da floresta,
A tragédia aconteceu.
Com o jumento de Maurício,
Velho conhecido meu.

Maurício andava aperreado,
Com as andanças do seu jumento.
Foi quando lhe veio a cabeça,
Um maldito pensamento.
Só capando este animal,
Vai ter fim o meu tormento.

Os vizinhos reclamavam,
Daquele jumento vadio.
Que quebrava todas as cercas,
Ao ver uma fêmea no cio.
Vender, Maurício não queria.
Seu bicho, não negocia.

Seu Juarez e Cristiano,
Fizeram reclamação,
Do bicho lá no roçado,
Comendo milho e feijão.
O jumento era uma peste,
Era o capeta, era cão.

Dona Maria Prevenida,
Arranjou uma baladeira.
Quando via o bicho viçando,
Sua pedrada era certeira.
Ele encolhia o que esticou.
E desembestava na carreira.

Manoel Ota certo dia,
Chegou a passar mal,
Quando viu o tal jegue,
Rondando o seu curral
Pra proteger suas vacas,
Tangeu o tarado com um pau.

O jumento continuava
em sua peregrinação,
atrás das bestas nos matos,
nas andanças pelo sertão.
Nem um dia de serviço,
Dava mais ao seu patrão.

O jegue endoideceu,
Perdeu de vez o respeito.
Pegou a égua de Zeca,
Sem pena passou nos peito.
A coitada escambichada,
Anda agora com defeito.

Esse bicho não tem jeito,
Isto é caso de polícia.
Ou capo esse jumento,
Ou vou acabar na justiça.
Quem chama isso de jegue,
Não sabe o que é mundiça.

Com o pensamento na cabeça,
danou-se a matutar:
_capo hoje ou amanhã,
ele não vai me escapar,
e o que eu tirar do seu saco,
pros cachorros vou jogar.

Maurício pegou a estrada,
Cheio de indignação
Foi laçar seu animal,
Perto do bar do Carlão,
Aproveitou e tomou uma,
Pra aturar seu garanhão.

O jegue voltou triste,
Sabendo o que lhe esperava.
Não demorou meia hora,
Mauricio o bicho capava.
Com dor no pissuidos
O jumento relinchava.

Só sei que o bicho sarou.
Mas, sempre jurando vingança.
Engordou ficou vistoso,
Criou peito,criou pança,
Quando anda se requebra,
Até parece que dança.

A revolta do capado,
Cada dia ficava maior.
Sua tristeza era grande,
Dava pena, dava dó.
E a situação de Mauricio,
Não sei se ficou melhor.

Pra vergonha de Mauricio,
Que era feliz outrora,
O jumento que era macho,
De repente virou boiola,
E é na porta de casa,
Que ele dá, relincha e chora.

O bicho perdeu os bagos,
Mas não perdeu o tesão.
Vive a castigar seu dono,
Depois da judiação,
O terreiro de Maurício,
Virou uma esculhambação.

Dizem que dona Toinha.
Depois da infelicidade.
Vive com as portas trancadas,
E pensa em mudar pra cidade.
Se Maurício não der um jeito
Ela muda de verdade.

Aninha pegou o beco,
Nino correu atrás.
Dizendo que aquele jegue,
Tinha parte com o satanás.
Com aquela sem-vergonhice
Ali não voltava mais.

Mas, parece que Maurício
Acostumou-se com a situação.
Há quem diga que ele gosta,
Daquela esculhambação.
E pretende cobrar ingresso,
Por cada exibição.

Maurício eu lhe dedico
A história que contei.
Sou sua amiga Dalinha.
Das suas graças eu sei.
Perdão se nesses versos,
Eu fui um tanto sem lei. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

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