segunda-feira, 6 de março de 2006

Iracema: 140 anos - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Duas formas de ler a vida e o mundo opunham-se na antiguidade: o logos ("história real") e o mythos ("história imaginada"). Tais formas hoje se abraçam. Os mitos, elevados a símbolos, são prenúncios do logos (a ciência).
Em nossa "história real", a pecuária marcou-nos, de masculino, o chão cearense: Na amplidão da caatinga, a rês. Atrás dela, o vaqueiro. Entre os dois, apenas a mística e a solidão. Mas foi Alencar que nos legou a "história imaginada" dos subterrâneos de nosso inconsciente coletivo: Iracema, "a porção feminina da alma nacional", a nos abrir sinuosas e sedutoras sendas, nas pegadas da serpente e de Eva, rumo ao solidário. Iracema saída dos banhos: das sombras, dos ventos, do sol. O "aljôfar d'água" (das chuvas, lagoas, cascatas, rios e mares) a rorejar-lhe o corpo, salpicado de verde: o dos "mares bravios", da relva e da selva, da alma cearense.
História de amor, sim, entre Iracema e o guerreiro branco! Mais que isso, o decantar da hospitalidade alencarina. Autêntico tour por "onde canta a jandaia", as "alvas praias", serras, sertões, a rica toponímia, rituais, culinária e cultura, a ter por guia "o pé grácil e nu" de Iracema. Aí, a sugestão de novos conceitos, mapeamento e roteiro para o turismo, ora caído no vil dueto de "gringos e prostitutas"!
Iracema, 140 anos! Justo quando o Ceará se repensa em seus caminhos, de sintaxe e perenização do verde e das águas. Tudo para que "Moacir, o filho da dor" aqui finque morada. O romance conclui-se: "O primeiro cearense ainda no berço emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?" Persiste a reflexão! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa
é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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