sábado, 18 de março de 2006

Dona Guidinha do Poço - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Dona Guidinha do Poço se inscreve entre os romances mais marcantes e cultos da safra literária cearense do século XIX. Conseguiu o autor ao mesmo tempo narrar uma estória envolvente como também denunciar o crime que na época consternou a toda sociedade cearense. A obra de Manoel de Oliveira Paiva baseou-se no caso de Marica Lessa, fazendeira poderosa de Quixeramobim que em meados do século XIX se envolveu como mandante em um crime passional resultando na morte do esposo. Marica Lessa veio cumprir pena na cadeia pública de Fortaleza, depois de anos sofrendo na prisão, foi solta e passou a perambular nas ruas da capital como indigente até a morte. A sina trágica desta história levou o escritor a inserir na trama não só o amor proibido de uma mulher casada por seu sobrinho levando-a ao assassinato do esposo, como também a sofrível realidade das secas como palco maior. Margarida ou Guidinha como chama o autor, detém uma sutileza psicológica e é apontada por muitos estudiosos como uma das maiores personagens femininas da ficção brasileira do século XIX. Ela é a poderosa senhora do Poço da Moita, para onde se dirigem sofridos retirantes. Coube ao estudioso Flávio Loureiro Chaves uma definição mais concisa da personagem: "Ela é ao mesmo tempo boa e má, forte mas duvida de si mesma, é feminina em seu amor e terrível em seu componente de sertaneja barbarizada." Na obra há um resgate da linguagem regionalista do centro sul cearense, o linguajar sertanejo é apresentado em suas várias faces: vaqueiros, agregados e trabalhadores rurais. Guida do Poço tem um fim trágico como a personagem que a inspirou. Delatada pelo criminoso como a mandante do assassinato, ela é confinada na prisão, de lá, abandonada por todos que antes a veneravam, contempla pela janela gradeada as raras nuvens que o vento quente e árido do sertão impede juntar-se, talvez uma tênue metáfora da não concretização de seus intentos. Manoel de Oliveira Paiva, nasceu em Fortaleza em 12 de julho de 1861, estudou no Rio e regressou a capital cearense onde participou de vários movimentos literários, como o da fundação do Clube Literário em 1886, considerado o marco do realismo cearense. Faleceu em 29 de setembro de 1892 com pouco mais de 30 anos, vítima de tuberculose. Deixou como romance "A Afilhada", publicada em folhetins no jornal "O Libertador" e "Dona Guidinha do Poço", cujos originais passaram das mãos da viúva do escritor para Antônio Sales que os levou a Américo Facó, repassando este décadas depois a Lúcia Miguel Pereira que finalmente os publicou em 1952. Da morte do autor à publicação haviam se passado sessenta anos. O romance apesar de vir a público somente no século XX é considerado uma obra modelar precursora do modernismo e realismo brasileiros, é dele o mérito de iniciar as narrativas que iriam culminar nos romances de secas que tiveram seu auge na década de 30 do século passado.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.
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