quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Gerardo Mello Mourão, poeta grego nascido em Ipueiras - Por José Luís / Fortaleza


Carlos Drummonde de Andrade, considerado um dos grandes poetas brasileiros, eternizado em bronze na praia mais famosa do Brasil, a de Copacabana, no Rio de Janeiro, assim dizia: Algumas pessoas pensam que sou o grande poeta do Brasil. O grande poeta do Brasil é o Gerardo Mello Mourão. E digo o Gerardo, como se diz o Dante. Isto resume o lugar que o escritor ipueirense Gerardo Mello Mourão ocupa na literatura brasileira e mesmo na literatura mundial. De Ezra Poud a Jorge Luís Borges e Octavio Paz, muitos já teceram encômios à força camoneana de sua poesia, que, entre outras honrarias, já chegou a ser indicada para o prêmio Nobel de literatura e, em 1997, a Guila Órfica, uma secular irmandade internacional de poetas, elegeu Gerardo como o poeta do século XX.

Mello Mourão pertence à cepa dos fundadores do País que ele denominou dos Mourões. Na realidade, toda a Serra Grande, ou Serra da Ibiapaba, foi a sede do reinado dos Mello Mourões. Ali eles nasceram, cresceram, travaram lutas, morreram em meio a conflitos e fizeram a história daquela região.

Ipueiras e o Ceará devem se orgulhar de ter um filho que resume, em si só, o que é ser universal, sem esquecer de cantar a sua aldeia. Gerardo Mello Mourão, se orgulha de sua terra, de sua gente. Sempre que pode está aqui e revive seus dias de infância. Em 2003, quando recebeu o título de Cidadão Guaraciabense, outorgado pela Câmara Municipal de Guaraciaba do Norte, o poeta dizia que aquela terra também é sua. A sua família floresceu na Matriz de São Gonçalo dos Mourões, na chã da Ibiapaba, na Ipueiras de tantos Mellos, tantos Mourões.

No início da vida, Mello Mourão, nascido a 8 de janeiro de 1917, e batizado, quatro dias depois no dia 12 do mesmo mês, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Ipueiras pelo primo monsenhor José de Lima, decidiu ser padre e seguiu para o seminário a fim de se tornar sacerdote, mas a vida o levou para outras atividades.

Sendo o maior poeta do Brasil, Gerardo se diz cearense há mais de quatrocentos anos e quando dizemos que é poeta grego, nascido em Ipueiras, é porque poucos escrevem ou falam grego igual a ele na América. Em seu livro Os Peãs e até mesmo n´O País dos Mourões, encontramos trechos inteiros nesse idioma por ele tão bem dominado.

Cidadão do mundo, ele perdeu a conta de quantos títulos de cidadãos honorário e Doutor Honoris Causa possui, destacando os de Quebec, de Paris, de Valparaíso, no Chile, entre outros e as muitas cidades do Brasil que o possuem como filho honorário. O poeta diz: Fui amassado no barro bom para o homem. Nunca me saíram da memória da retina as palmeiras e os chapadões da serra azul, por onde os jesuítas temerários escreveram com o próprio sangue o capítulo inaugural da primeira navegação mediterrâneo do Brasil, singrando o sertão e a cordilheira, entre o Ceará e o Piauí. Guardo nos ouvidos da memória o estrondo dos bacamartes com que meus antepassados, Mellos e Mourões, se engolfaram na guerra fratricida, sustentada pela bravura do coronel José de Barros Mello, oito vezes meu tetravô, chamado O Cascavel, ao enfrentar a fúria vingadora de seu cunhado e primo-irmão, também meu tio-tetravô, o indomável Alexandre Mourão, que levou sua guerra até o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco, com a galhardia romântica de um capitão da Renascença.

Poeta, jornalista (foi correspondente da Folha de São Paulo na China durante trinta anos), político, cristão, guardião das tradições nordestinas, passou vários anos na prisão em diferentes períodos, por conta de suas ideologias, as quais, mesmo aos 87 anos, nunca abandonou.

No cárcere, escreveu o primeiro romance O Vale de Espadas, que se segue da trilogia Os Peãs, O País dos Mourões, A invenção do Mar e tantos outros.

Sábio como poucos, o poeta é devoto de São Gonçalo Majella, seu patrono na Academia Brasileira de Hagiologia, por mim fundada juntamente com as escritoras Matusahila Santiago e Gizela Nunes da Costa. Quando lançou o livro biográfico O Bêbado de Deus, sobre São Geraldo Majella (1726-1755), afirmou na imprensa que Trocaria tudo o que sei e tudo que escrevi pela sabedoria do pequeno alfaiate de aldeia que conversava com Deus e os anjos em sua aldeia dos Apeninos.

Gerardo Mello Mourão é um orgulho nacional e patrimônio da cultura e, nós que somos originários do País dos Mourões (a Serra de Ibiapaba), reverenciamos, lisonjeados, sua sabedoria e reconhecemos o contributo por ele dado à literatura universal. *PC*

José Luís é Professor da UVA, Presidente da Academia Brasileira de Hagiologia
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