segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A bodega - Por Tânia Alves / Fortaleza


Com duas portas de madeira fornida e desgastada, a bodega ficava no Centro da pequena cidade, próxima a tantas outras no mesmo estilo na zona comercial. Era ali no meio de surrões cheios de farinha, milho, feijão e goma; de litros e mais litros de cachaça; com rolos de fumo de palha em cima do balcão e prateleiras escassas de mercadorias que as pessoas se encontravam aos sábados, dia de feira. Do outro lado do balcão, ficava o dono da mercearia, um filho e um sobrinho que eram os ajudantes.
Os fregueses iam de longe das comunidades da zona rural ou da periferia. Gostavam de freqüentar o recinto apertado, ficar por ali sentados em tamboretes de madeira ou encostados nos sacos. Muitos iam à bodega não somente para comprar um quilo de açúcar ou de arroz, ou adquirir uma lata de óleo, mas também para jogar conversa fora, encontrar os amigos. Passavam horas e horas tomando cachaça, genebra, Conhaque de Alcatrão de São João da Barra ou guaraná quente. De cada dose, jogavam um pouquinho no chão (acho que era para o santo) e tiravam o gosto com uma mão cheia de farinha branca ou d`água.
Deixavam guardados no local os sacos com as primeiras compras do dia, as carnes e os peixes amarrados com embiras e que o comerciante colocava pendurados em pregos na parede. Voltavam para a feira para fazer outras compras.
Retornavam, no fim da manhã, para buscar os sacos deixados na mercearia e voltavam para casa.
Numa época em que as cartas eram a única forma de comunicação possível, a bodega também funcionava como correio informal entre os pais de família que partiam para o Rio, São Paulo ou Brasília e as mulheres que ficavam na cidade. Antes da viagem, combinavam com o dono da mercearia que enviariam cartas aos cuidados dele para serem entregue aos familiares. Na parte do destinatário vinha escrito: para fulano de tal, no Riacho das Flores, aos cuidados de Vicente Rosendo (que era o dono da bodega). O carteiro entregava a correspondência ao comerciante, que se encarregava de fazer chegar até o destinatário.
No sábado, as pessoas apareciam na mercearia igualmente em busca das cartas. O filho do dono da venda pegava o maço de correspondências que ficava em cima de uma mesa e lia os nomes de todos os destinatários. As vezes, não tinha chegado nada para a pessoa que ia em busca de notícias, mas aparecia uma carta para um vizinho na comunidade e ela se encarregava de entregar. Sempre dava certo, não havia extravio. Ali, as pessoas deixavam ainda as cartas para serem enviadas. Todos os dias, por volta das 9 horas, o ajudante saía da bodega e levava a correspondência para ser postada.
Foi assim durante anos, até surgirem outras formas de comunicação. Além disso, o bodegueiro ficou cansado, havia envelhecido. Após a aposentadoria, decidiu fechar a bodega. Mas enquanto pôde, nunca deixou de ir para a "rua" (centro comercial) um dia sequer. O filho dele viajou por Fortaleza, São Paulo e voltou para a cidadezinha. Como o pai, montou uma bodega, que também é freqüentada por pessoas que moram na zona rural. No dia de feira, os fregueses continuam deixando compras no local para guardar (as carnes agora ficam em freezer) e ainda de permanecer por ali conversando sentados e, banquinhos de madeira tomando, agora, cerveja gelada.

Publicado na coluna Ceará do jornal O Povo, de Fortaleza.

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