terça-feira, 18 de outubro de 2005

<i>O Quinze</i> de Rachel de Queiroz - Por Bérgson Frota / Fortaleza

Há exatamente 75 anos Rachel de Queiroz (imagem acima) publicava seu romance primeiro, O Quinze. Escrito às escondidas, à noite, à luz de lampião, ela criou uma obra que denunciava um Brasil inexistente culturalmente no resto do país litorâneo e fértil, típico do modernismo dos anos 30.

O Quinze refere-se à grande seca de 1915, ocorrida no Ceará. No entanto a jovem escritora no ano em que situou seu romance tinha apenas cinco anos e suas lembranças mais pungentes do sofrimento que este flagelo trouxe foram da seca de 1919, quando tinha nove anos, depois assistiu a pequenas secas e foi então que, trabalhando literalmente o projeto, concebeu um livro que tivesse dois propósitos: não só narrar o drama duro e cruel da seca como também os conflitos íntimos de seus personagens.

Conduzida de forma magistral, a obra de Rachel de Queiroz se desenvolve em dois planos claramente distintos. Conceição é a figura central que os liga, por isso presente está nos dois. É por este personagem feminino que a autora interfere na obra, que sente e projeta suas experiências. Na trama ricos e pobres interagem sem cair no maniqueísmo, ou divisão muito comum em romances baratos da época em que a maldade estava nos que detinham riquezas e a bondade com os miseráveis.


No primeiro plano desenvolve-se a relação afetiva e conflituosa de Vicente, um rude proprietário criador de gado, com Conceição, sua prima e culta professora. No segundo vê-se um típico personagem da seca cearense, o retirante. Chico Bento e sua família, que são forçados a abandonar a fazenda em que trabalhavam e partem em direção ao norte, presenciando no caminho a morte e a fuga dos filhos.

Com a seca surgem os conflitos típicos da convivência humana em períodos de calamidade, os personagens vão se conhecendo e descobrindo o quão diferentes são e como se deixaram enganar por suas fantasias.

De forma concisa Rachel de Queiroz tece tramas nos dois planos que levam o leitor a perceber as incertezas e riquezas presentes na alma de todo ser humano quando submetido a provações rudes e o afloramento de humanidade que o sofrimento faz brotar destas provações, numa estruturação de orações que exprimem a coloquialidade denunciadora do interior do Brasil.

A obra foi publicada em 1930 pela tipografia Minerva, em Fortaleza, com edição paga pelo pai da autora, orientado por Antônio Sales, que muito a ajudou. O romance foi bem recebido, pois nele Rachel de Queiroz optou por fugir do realismo romântico em que muitos autores até então retratavam o tema da seca.

O livro foi enviado ao Rio e as críticas foram as melhores possíveis, sendo a obra a primeira a ganhar o prêmio da recém fundada Fundação Graça Aranha.

Rachel de Queiroz a partir de então ficou conhecida nacionalmente e seu livro saudado como obra inovadora da temática das secas na literatura brasileira. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2005

O Príncipe e a Rosa - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Certa vez, um principezinho mimado, passando pelo jardim de seu castelo, deparou-se com uma linda Dália, que se requebrava graciosamente ao vento. Caiu de amores pela rosa, e todos os dias fazia o mesmo caminho só para apreciar e sentir o cheiro daquela que tanto lhe encantava.

Cada dia que passava, ele ficava mais e mais apaixonado, era tanto seu amor que acabou conquistando o coração da bela rosa.

A rosa humilde e bela sabia que jamais passaria de um simples enfeite de jardim. Mas, não tinha grandes ambições. Sentia-se bem assim. Era uma rosa doce e cativante, não possuía espinhos, vivia cercada de borboletas, pequenos besouros, beija-flores, abelhas e outros insetos.

O principezinho começou a ficar enciumado com tanto movimento em volta de sua amada, e num ataque de ciúmes e egoísmo, ordenou aos seus serviçais que transferissem sua rosa querida para dentro do castelo, onde só ele e mais ninguém pudesse desfrutar da presença da doce Dália.

O tempo foi passando, e a pobre rosa não se conformava com a atitude egoísta de seu amado.

Sentia falta do seu mundo, do seu habitat. De que adiantava tanto amor se no fundo era uma prisioneira. Sentia saudades dos zumbidos dos besouros, do colorido das borboletas em festa, dos chamegos do beija-flor, das abelhas que ao sugarem seu açúcar para fazer o mel distribuíam seu pólen para as outras flores, e chorava de saudades do orvalho que umedecia suas pétalas deixando-a bela a cada manhã e reluzente dos raios solares.

Assim foi murchando e murchando, perdendo a cor, perdendo o brilho e preocupando o principezinho. Certo dia, ele acordou, e qual não foi a sua surpresa! No lugar da sua Dália havia apenas galhos murchos e pétalas de rosas espalhadas pelo chão.

Triste e inconformado, saiu juntando pétala por pétala e as colocou dentro de um belo vaso levando-o até o lugar de origem os restos de sua amada.

Todo dia ele ia ao canto do jardim chorar suas mágoas e pedir perdão à dona de seu coração. Seu sofrimento dava pena. Foi aí que aconteceu um grande milagre.

As lágrimas que todos os dias molhavam o vaso e o arrependimento sincero do nobre fizeram com que a roseira florescesse novamente e no primeiro dia de primavera, para a felicidade do príncipe, apareceu uma linda Dália requebrando-se ao vento graciosamente exalando o cheiro da liberdade e anunciando o recomeço dos sonhos. *PC*

Publicado no caderno DN Infantil do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2005

A Primeira Semana Cultural de Ipueiras - Por Bérgson Frota / Fortaleza

O então prefeito Manoel Cavalcante Dias (terceiro à mesa da esquerda pra direita) discursa na abertura do evento


Há exatamente 20 anos era realizada a Primeira Semana Cultural de Ipueiras.

O prefeito Manoel Cavalcante Dias festejou e patrocinou a data de 14 a 21 de julho de 1985.

Para o evento a prefeitura com antecedência encomendou ao jornalista, cronista e poeta da terra, Jeremias Catunda (foto logo abaixo), uma obra que marcasse este acontecimento no ensejo que tal feito fosse repetido em anos vindouros.

Jeremias Catunda colocou poesias, sonetos e poemas de uma seleção escrita desde 1949 numa obra intitulada Versos Versus Minha Vontade.


Jeremias Catunda entrega um exemplar a Dona Ivaneuda Aragão


A obra contém uma pequena estrofe introdutória na qual o autor melhor se definiu:

"Não me chame de poeta
não me agrada, não convém
tenho o nome é do profeta
maior de Jerusalém,
Jeremias."


No livro estão 22 trabalhos, tais como: Minha Terra, A Carnaubeira, O Carro de Bois, Mãe, Diálogo na Porta do Céu, Maria da Sordadi (a já lendária poesia matuta de sua autoria) e finalmente Ipueiras Centenária, trabalho por ele feito quando foram comemorados os 100 anos do município.


Capa de Versos Versus Minha Vontade


O lançamento do livro foi no Clube de Ipueiras, estando presentes na mesa central o prefeito Manoel Dias, o poeta e sua esposa Ruth Frota Catunda, o Sr. Edmundo Medeiros, o Sr. Carlos Aragão e esposa e o Dr. Ivan Fontenelle e esposa.

Logo após o lançamento, muito prestigiado pela sociedade local da época, seguiu-se um concorrido coquetel.


Jeremias Catunda autografa exemplares de seu livro


Jeremias faz dedicatória especial ao amigo e fotógrafo Gonçalinho (já falecido)


A Primeira Semana Cultural de Ipueiras não se repetiu no ano seguinte, somente a memória do primeiro evento ficou. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

(058)

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Des(armamento) - Por Carlos Moreira / Ipueiras


No próximo dia 23 de outubro, o povo decidirá se concorda com a proibição do comércio de armas de fogo e munição em todo o território nacional, como prevê o Estatuto do Desarmamento.

A venda de armas de fogo deve ser proibida no país? Essa seria a pergunta a ser feita no referendo sobre armas. A outra: desarmar contra quem?

No meio de toda a roubalheira em que vive o país, parece que definitivamente resolveram montar o circo. Entra em cena o plebiscito sobre o desarmamento.

Em um país onde os grandes bandidos estão no Governo e no Congresso, esses mesmos políticos que se arvoram como combatentes do crime querem desarmar a população.

O custo do referendo será de R$ 700 milhões, além dos gastos com propaganda.

O Estado e sua polícia são os maiores geradores de violência. A repressão aos movimentos sociais e os homicídios por parte de policiais civis e militares vêm crescendo.

Até agora não se sabe a razão de se gastar tanto num referendo, quando o povo precisa desse dinheiro para benefício da vida.

Seria ingenuidade acreditar que o "sim" à deposição de armas renderá benefícios imediatos. Vai-se mexer numa questão cultural. Este é um país que, no campo e na cidade, preserva grotões de subdesenvolvimento, onde o revólver na cintura ainda é tido como sinal de macheza. Vai se sondar a opinião de uma população amedrontada com a violência urbana e descrente de sua polícia.

Você decide. Sim ou não? *PC*

(057)

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Histórico sobre Zeca Bento - Por Dalinha Aragão* / Rio de Janeiro


A Terra, parte do Universo em que seus habitantes vivem suas existências através de expiação e de provas, recebeu há 100 anos um habitante para morar que, enquanto aqui viveu, foi conhecido por Zeca Bento (imagem acima). Ipueiras foi a cidade que o acolheu, tendo nela vivido desde o nascimento, em 17 de setembro de 1905 até 19 de novembro de 1985, quando desencarnou. Filho caçula do casal Coronel José Bento de Oliveira Fontenele e de Inocência Catunda Fontenele, teve como irmãos: Raimundo Catunda Fontenele, Raul Catunda Fontenele, Hugo Catunda Fontenele, Dario Catunda Fontenele e Mileto Catunda Fontenele ? tendo todos constituído família em Ipueiras, alargando assim a descendência da família Catunda Fontenele. Só de Zeca Bento, que casou-se em dezembro de 1936 com a professora Ineizita Ribeiro Bessa, hoje vivem 12 filhos, 26 netos e 13 bisnetos.

Zeca Bento foi Tabelião, Escrivão e Oficial do Registro Civil de Ipueiras. Identificou-se muito bem com os conterrâneos pela maneira simples e descontraída como levou sua vida, ora no convívio do lar com Dona Ineizita e os 12 filhos, ora no Cartório Bento Filho, que era um local de encontro dos ipueirenses onde se sabia do que estava acontecendo na cidade e no mundo, pois ali era lida, semanalmente, a revista O Cruzeiro ou nos dias que o trem vinha de Fortaleza chegavam os jornais da Capital. Naquela descontração também se falava da "vida alheia" ao ponto de o local (o cartório) ficar sempre com bastante gente, pois as pessoas ficavam receosas de sair para não ser alvo das línguas ferinas dos que ficavam.


Zeca Bento também era homem de preces. Rezava "breves orações" ao acordar, antes das refeições e, à noitinha, "puxava" o terço com toda a família, além de, no final da tarde, quando do retorno do trabalho, uma passadinha na igreja para participar da bênção das 6 horas - a missa do ângelus. O costume da prece se estendeu bem aos seus herdeiros, apoiados nos ensinamentos cristãos do "pedi e obtereis, buscai e achareis".

E foi assim, nesta sua passagem na Terra, que Zeca Bento deixou bons exemplos para seus herdeiros, que já se constituem na 3ª geração, manifestação também enfatizada pelo amor que dedicou a Ipueiras e que, pela estima que teve de todos os seus diletos conterrâneos, só deu motivo para que seus familiares dediquem e continuem amando esta querida cidade. *PC*

Dalinha Aragão é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

*Colaborou Tadeu Fontenele.

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domingo, 2 de outubro de 2005

O verbo mentir - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Heringer - A Charge Online


Em meio à crise política, invade-nos produtivo clima apocalíptico: de (des)construção, mas de (re)construção; de "fossa", mas de esperança. Ética, ela nos leva às raízes de atropelada "convivência social", em nossa história. E, aí, a descoberta de um estranho "pacto social" assentado não sobre a verdade, mas na enganosidade e na mentira. Entre nós, política é sinônimo de jogo-de-cintura, "lei do Gérson" (levar vantagem em tudo), vias para o tráfego de influências, corrupção a rotular de "privado" a "coisa pública".

Em nossa cultura, a mentira não está entre os "pecados capitais". Aqui, não se jura, sobre a bíblia, dizer a verdade. O verbo "mentir" é direito assegurado por habeas corpus dos tribunais... E os resultados deitam pegadas em nossa história política: golpes de estado, suicídios, renúncias, impeachments. A corrupção nos entranha a vida social e política. Hoje, ela se desnuda nos meios de comunicação, nas CPIs, em nosso humorismo e nas novelas. Nos momentos agudos de nossa história, seus crimes se abatem pelo sacrifício de bodes-expiatórios menores (os "pcfarias" e "delúbios"), no lugar de pecadores mais graúdos.

Na Praça dos Três Poderes ("podres poderes", diria Caetano Veloso), tece-se, como na história infantil, uma "nova roupa do rei". A idéia é que interesses maiores se resguardem nos planaltos. E que os sonhos de nossas alvoradas comuns não se frustrem. Por isso, o "costurar" a virar "blindar"...

Mesmo assim, os novos fios da "blindagem" talvez não resistam. A reforma terá que ser mais profunda. É passar a limpo os borrões de nossos cadernos sociopolíticos. Do contrário, a "porção criança" da alma nacional, como no conhecido conto infantil, não se conterá. E, para a vergonha de todos, poderá gritar, a todos os pulmões: "O rei está nu!" *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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