quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Meu pai, meu guia - Por Dalinha Aragão / Rio de Janeiro

De meu pai eu apanhava,
quase todo santo dia.
Era menina levada,
boas surras merecia.
Mesmo assim eu adorava,
àquele que me batia.

Se apanhei, fiz por onde.
Entendo a situação.
Por isto trago com gosto,
meu pai em meu coração.
O objetivo das surras,
era apenas a correção.

"Quem não faz filho chorar,
mais tarde chora por ele".
Assim reza o ditado,
e os antigos criam nele.
As surras, carões e castigos,
eram apenas excesso de zelo.

Das sovas, não tenho saudades.
Mas, ainda mereço sermão,
quem dera ser sempre guiada,
por sua voz e sua mão.
Continuo sua menina.
Faz falta sua proteção.

*PC*

Publicado no jornal O Povo, de Fortaleza.

Dalinha Aragão é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

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terça-feira, 9 de agosto de 2005

Vaticínios a gosto - Por Marcondes Rosa e Sousa / Fortaleza

Eder - A Charge Online


Na televisão, assisto à "novela política". E, ávido pelo fundo do poço, torço por apocalipse a nos gerar mundo não tão farisaico, a partir dos vaticínios de agosto. O telefone toca. É Vera Uchoa, em luta pelos direitos sociais dos professores. Ela me dá conta de questão (tabu de 20 anos, não resolvido) entre professores da UECE e Estado. Queixa-se do "corpo mole" do Sindicato dos Professores e seus advogados. E me conta de como teriam - Helena Frota e ela - a expensas próprias, ido ao Supremo Tribunal Federal e, no "salão verde", conversado com o ministro relator. Apoios, os do jurista Paulo Bonavides e da OAB. Do relator, dois sentimentos: de início, o da "visão monocrática", em favor dos professores; depois, ouvido o Estado (dívida insolúvel, gastos com as secas etc.), a favor deste.

"E onde os direitos, o lado jurídico?" - indagam as professoras. "Cedem lugar ao social" - a resposta. "E não são sociais os direitos trabalhistas?" - a réplica, em meio ao triste quadro. Muitos, já mortos sem receber o direito. Aposentados, a amargar penúrias. A maioria aceitando acordo, anistiando o passado e garantido o "pra frente".

O relator promete rever a questão. Mas Vera é pessimista: "É procurar trabalho até a morte e ter pena dos novos docentes: titulação crescente exigida, condições de trabalho e salários precários". Ela me agradece o ouvir, em mim deixando inquietações com o drama pessoal, maior que o social.

Na TV, a crise se embaralha. Cansado, adormeço. E, em sonho, dou com Montesquieu, o autor de O Espírito das Leis (Séc. XVIII), na praça dos Três Poderes em Brasília, tristonho. Por quê? Ele, surrealista, me diz: "Espero que os brasileiros não me deturpem a obra, tentando distorcida harmonia entre os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) à custa dos mensalões". *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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