terça-feira, 26 de julho de 2005

As Iracemas de Fortaleza - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Fortaleza festeja este ano os quarenta anos da construção da primeira estátua de Iracema, ícone maior do romance indígena brasileiro.

Construída em 1965, quando comemorou-se o centenário do romance, esta primeira estátua (imagem acima), que é a mais conhecida e a segunda em tamanho já feita, foi erguida na praia do Mucuripe, na Avenida Beira-Mar, teve como escultor o pernambucano Corbiniano Lins, que venceu um concurso público concorrendo na ocasião com artistas de prestígio nacional.

A estátua da índia é toda de alvenaria, suas pernas são longas e grossas e completando o monumento sentado está seu esposo Martim, que segura aos braços o filho Moacir, não faltando o cão Japi. Seu estilo é moderno, retratando a severidade e o respeito que inspira a saga da heroína.

Na inauguração do monumento estiveram presentes o presidente da República Marechal Humberto de Alencar Castello Branco e o então prefeito da cidade na época senhor Murilo Borges.

Desde então na capital cearense já foram erigidas mais três estátuas de destaque em homenagem à índia tabajara.

A segunda estátua (logo abaixo), obra de Zenon Barreto, feita de bronze, é conhecida como "Iracema Guardiã", inaugurada na Praia de Iracema em 1996. Nela o estilo arrojado retrata uma figura com a perna direita ajoelhada e a esquerda apoiando-a, cabisbaixa segura um arco dobrado em forma de meia lua, um pouco distante do estilo da primeira é quase uma obra simbólica, fugindo das formas convencionais da figura humana.


Iracema Guardiã (segunda estátua em Fortaleza)


Inaugurada em 2002 na praia de Formosa, na orla marítima do centro da cidade, a terceira estátua é obra do escultor Descartes Gadelha, prima pela simplicidade e presença feminina da virgem índia.

Finalmente na lagoa de Messejana, precisamente no centro desta, está a quarta estátua (foto abaixo), inaugurada em 2004, tendo como rosto o da modelo cearense Natália Nara.


A obra retrata Iracema sentada sobre uma pedra levantando uma concha que verte água para a mesma. Sua altura é de 12 metros, pesando 8 toneladas, ela está posta no centro da lagoa distando cerca de 30 metros da margem. Feita com um polímero importado dos Estados Unidos em fibra de vidro e resina, foi esculpida em São Paulo num trabalho conjunto de dezesseis artistas, recebeu uma pintura dourada especial e foi inaugurada pelo prefeito Juraci Magalhães em 13 de abril, comemorando os 270 anos de Fortaleza. A obra teve como modelo uma maquete criada pelo artista plástico cearense Alexandre Rodrigues, sua durabilidade é estimada em 100 anos, período em que deverá sofrer uma restauração.

As quatro estátuas demonstram o quanto o povo cearense estima a personagem Iracema, heroína primeira e única do romance homônimo que em 2005 completa 140 anos. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

(050)

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Os fins justificam os meios? - Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Humberto - Jornal do Commercio (PE)


Atônito, sigo passos e ângulos da nova crise, a refletir quão ambíguo é o termo "política": "natureza e projeto humano" e, ao mesmo tempo, "gestos sombrios". Cada grupo, sob a pauta de Maquiavel: "Os fins justificam os meios". No popular: "Em todo gesto político há uma quota de sacanagem".

Após a ditadura, dei com amigos retornados à política, a abraçar hábitos escusos. E eles, ante meu espanto: "Mas não é essa a lógica?". De Gonzaga Mota, ouvi estratégia de como navegaria no estreito espaço a ele deixado no "acordo dos coronéis": "Preservar o substantivo e negociar o adjetivo". Ao governo de Tasso, ousei indagar qual a "dose de sacanagem". Recebi seca e esperada negação: "Nenhuma!"

Agora, aí estão, escancarados, indícios e evidências dos "mensalões". Inúteis as defesas: "Sempre os tivemos", "Tentativa de golpe", "Boicote aos amplos programas sociais"... Não é por aí. Mas "passar a limpo o País". E isso se faz com ampla reforma política, inspirada na ética: financiamento transparente, partidos com base ideológica e programas, sob os laços da "fidelidade partidária", adoção de mecanismos de participação popular como plebiscito, referendo, recall. Nesse clima, o pacto pela governabilidade, sob os parâmetros da ética e do interesse nacional.

Saímos, há muito, da ditadura. Ditos social-democratas ou socialistas, nossos governos têm, ambíguos, oscilado rumo: a) a uma economia a render obediência ao que ditam os países ricos; b) a um programa social, esquecido do que, 50 anos atrás, nos diz o baião: "Mas, doutor, uma esmola/ a um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão" (Luiz Gonzaga e Zé Dantas).

Não, a esperança não morreu. Agora, ela divisa caminhos viáveis. O presidente diz prezar sua biografia. Livre-se, pois, de seu perverso entorno. E abrace a nação! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

(049)

sábado, 9 de julho de 2005

O Forró do Zeca Frosino - Por Bérgson Frota / Fortaleza

Cinqüenta anos atrás era realizado o primeiro forró no sítio Corte Branco, próximo a Ipueiras. Seu criador, Zeca Frosino, passou a organizá-lo todos os anos na primeira lua cheia do mês de julho.

Tal característica mantida até hoje é resquício do tempo em que a energia era rara e a luz forte do luar servia para iluminar o terreiro onde os casais dançavam.

Durante meio século de existência, em apenas um só ano não ocorreu o forró, devido à morte do pai do realizador.

Nos anos posteriores a festa foi se tornando mais organizada, apesar da tradição da lua cheia ser mantida. Hoje não só o salão de dança como a parte de mesas é bem iluminado.

Sendo uma festa tipicamente nordestina, o forró do Zeca Frosino só cresceu com o tempo, sua fama passou a reunir filhos ausentes da terra que já há muitos anos haviam partido.

A festa do Corte Branco é conhecida em quase toda a zona norte do Estado. Há traços folclóricos que ainda são mantidos, um deles é o tronco que antigamente se amarrava os que queriam confusão, só sendo soltos quando o forró terminava.

A modernidade não apagou o brilho desta festa, talvez porque nela Zeca Frosino empenha ainda hoje muito de seu entusiasmo e iniciativa, fazendo com que os participantes sejam respeitados e bem servidos.

Zeca Frosino nasceu no distrito de Abílio Martins, no município de Ipueiras, em 9 de março de 1926, recebeu no batismo o nome de José Batista dos Santos, casou-se e é pai de onze filhos. Sua figura carismática e popular levou-o a receber o apelido pelo qual hoje é conhecido.

O Forró do Zeca Frosino é mais uma prova de pujante resistência das tradições regionais frente ao avançado modismo que toma conta do cotidiano nas cidades interioranas, agredindo de forma clara tradições seculares e valores genuinamente regionais. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

(048)

Zeca Frosino - Nota Biográfica - Por Dalinha Aragão / Rio de Janeiro

Em 9 de março do ano de 1926, nascia no lugarejo chamado Abílio Martins, interior de Ipueiras, aquele que pode ser chamado, por direito, de nosso rei do forró.

José Batista dos Santos, conhecido popularmente como "Zeca Frosino", hoje na cultura cearense é sinônimo de tradição. Sendo, portanto, parte importante do patrimônio histórico de Ipueiras.

Filho de Eufrasino Batista dos Santos e Silvina Maria da Conceição, casado com Dona Maria Cordeiro dos Santos (serrana de fibra), de cuja união nasceram onze filhos, companheira de garra, que sempre acompanhou o marido, ajudando-o nos momentos difíceis, e incentivando-o nas horas dos sonhos.

Há cinquenta anos, com muito sacrifício, porém com muita coragem, teve ele a singela idéia de organizar um forró para animar sua gente. A partir daí, chovendo ou fazendo sol, em todo primeiro sábado de lua cheia, no mês julho, ele faz Ipueiras dançar em ritmo de forró.

A sabedoria dos simples deu a ele o poder de reunir numa mesma festa o povo da cidade e as gentes do interior numa perfeita confraternização.

Foi pautado na amizade, na honestidade, e acima de tudo no respeito, que "Zeca Frosino" conquistou uma legião de admiradores e seguidores.

Assim, este ipueirense carismático, de alma festiva, digno de nosso respeito e admiração, lenda viva de Ipueiras, deixará em nossa história seu nome e a certeza de que passará de pai para filho a responsabilidade de levar adiante tão importante missão. *PC*

Dalinha Aragão é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

(047)

quinta-feira, 7 de julho de 2005

O Arraiá de todos nós! - Por Carlos Moreira / Ipueiras


No dia 1º de julho, Ipueiras tornou-se a Capital Junina do Norte do Estado. O I Ipueiras Junina aconteceu na praça Maria Lima no centro da cidade e movimentou toda a região.

O evento ganhou feição regional, por contar com quadrilhas representando diversos distritos do município, apresentações de danças, barracas com comidas típicas, artesanato e muito forró.


Uma estrutura com palco, arquibancada e camarote foi montada para acomodar o povo que assistia ao evento. Para as arquibancadas e camarotes foi recebido 1kg de alimento não perecível destinado aos projetos sociais da Prefeitura Municipal de Ipueiras.


"Ipueiras será vitrine para as festas juninas da região e do Estado", afirmou Antonio Alves Neto, diretor de Arte e Cultura da SEDUC-M.

A quadrilha Arraiarte, do distrito de Engenheiro João Tomé (Charito), foi a grande vitoriosa. Ficaram em 2º e 3º lugares, respectivamente, Queima Fogueira, do distrito de Livramento, e Rosa Vermelha, do distrito de América.

O evento contou ainda com apresentação de Poesia Matuta, Dança do Boi Vadeia e peça teatral.

Participaram da grande final do Festival Junino o deputado federal Bismark Maia (PSDB), o vice-prefeito de Ipueiras, Muriel Damaceno, o presidente da Câmara Municipal de Ipueiras, Francisco Clairton, dentre outras autoridades.

O prefeito de Ipueiras, Raimundo Melo Sampaio (Nenem do Cazuza), ficou radiante com o sucesso do evento: "A tradição ainda continua no interior". E concluiu: "Isto é o resultado de muito trabalho!"


A organização e a participação expressiva do público superaram todas as expectativas, deram o tom especial ao arraiá de todos nós!

O evento resgatou as manifestações folclóricas, fortaleceu o turismo cultural, aqueceu a economia interna e sem dúvida promove o município, além do entretenimento.

Essa é a Ipueiras de todos nós! *PC*

(046)

terça-feira, 5 de julho de 2005

O Titunda - Por Dalinha Aragão / Rio de Janeiro


Durante muitos e muitos anos, viveu na pequena Ipueiras um humilde carreteiro, que tinha o poder de encantar e atrair as crianças com suas fantásticas histórias.

Nesse tempo, o meio de transporte usado para conduzir as pessoas de uma cidade para outra era o trem. Tunda era um dos carreteiros, um negro forte e simpático, que em busca de uns trocados carregava a bagagem dos viajantes até o destino combinado.

Na cabeça do bom homem as malas chegavam aos seus donos, pois carro era artigo de luxo na época. Ele era pobre, mas tinha um tesouro que dividia sem egoísmo com as crianças: sua alegria.

Tinha o poder de manter a meninada da cidade numa eterna esperança de um dia ganharem um carneirinho. Sempre que passava por uma delas, repetia a mesma frase: 'Titunda' vai trazer um carneirinho pra você, viu?

- Titunda, quando você vai trazer meu carneirinho?

Era a frase que ele mais ouvia da meninada.

-- Amanhã, amanhã o 'Ti' trás.
--- Cadê meu carneirinho? - perguntava outra.

Tá lá no céu --- e apontava pra cima, rindo.

Era hoje, amanhã, depois e nunca chegava o tal dia. Assim foi com gerações e gerações, alegremente iludidas com a história do carneirinho. Certo dia, a cidade que sempre vivera debaixo de um céu azul, presenciou um fenômeno singular.

Ao badalar do sino da igreja, começou a aparecer no céu chumaços de nuvens brancas em forma de carneirinhos. Em pouco tempo, o firmamento estava completamente tomado. Quando o sino parou, todos olhavam para o céu que parecia formar uma bela gravura.

Do meio daquelas imagens feitas por nuvens, uma parecia ser a de Titunda a segurar um cajado reluzente comandando os carneirinhos que nunca chegaram às mãos das crianças, mas certamente permaneceram em seus sonhos. Quanto ao velho carreteiro, este, naquele dia, chegava ao céu, onde dizia estar seu grande rebanho. *PC*

Publicado no caderno DN Infantil do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Dalinha Aragão é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

(045)