terça-feira, 31 de maio de 2005

Os Fontenele (A Marcha do Tempo) - Por Ivan Fontenele Meira / Natal
Dando continuidade ao desmembramento familiar característico deste trabalho, abordaremos a família constituída por José Bento de Oliveira Fontenele e Innocência Catunda Fontenele. Antes, porém, gostaríamos de reconstituir a trajetória familiar de José Bento e quiçá a de Innocência.

José Bento era filho de Maria Fontenele da Fonseca e Vicente Ferreira de Oliveira, era neto por parte de mãe de Maria Antonia Freire da Fonseca e Manoel Joaquim da Fonseca, era bisneto, ainda seguindo a linhagem materna, de José da Cunha Fontenele e Ana Alexandrina Fontenele, primos carnais pois Ana era filha de João Fontenele e Maria Joaquina Fontenele, filha de Guilherme Fontenele. Era trineto de Umbelina Maria de Jesus e José da Cunha Freire. Umbelina era neta do casal Jean Fontenele\Umbelina que deu origem a esta numerosa e única família.

Ao reconstituir este ramo familiar eis que me vejo frente a um outro desafio, pois Innocência filha de Ludovico Praxedes de Sousa Catunda e Raquel Satyra de Sousa Catunda trouxe também para a construção do mosaico familiar ipueirense três irmãs que entrelaçaram vidas e que hoje confundem quem deseja se aventurar neste estudo genealógico.

Hermengarda Catunda Farias, casada com Sebastião Jovito Farias, pais de: Raimundo, Delmiro, Maria Luiza (Neném), Raquel, Maria da Conceição, Ludovico neto, Aderson, Pedro e José Jovito.

2- Geracina de Sousa Catunda, casada com Abd El - Rahman Catunda, pais de Joaquim Catunda sobrinho, Antonio, Lili etc.

3- Rosina Catunda Pinho casada com Antonio Bezerra de Pinho, pais de Luiza ( tia Isa), Ludovico, Piragibe e Expedito Catunda Pinho.

Voltemos ao casal José Bento\Innocência que gestou 06 filhos que serão a seguir nominados.

1- Raul Catunda Fontenele, ex-prefeito do município, casado com Maria
Angélica Mourão Catunda, pais de:

a) Ana (Sinhá) Mourão Catunda Esmeraldo, casada com José Esmeraldino, neto pais de: Raul, neto, Tales e Joelina;
b) Tereza Mourão Catunda Araújo, casada com João Pereira de Araújo, pais de: Raul Catunda de Araújo, casado com Lílian Teixeira de Araújo, pais de: Tiago, Bruno e Renan; Vânia Catunda Nunes, casada com Sergio Gomes Nunes, pais de Beatriz Catunda Nunes; Maria Socorro Catunda Nunes; Vanezi Catunda de Araújo; Vanira Catunda de Araújo Juvenal, casada com Edvaldo Orlando Juvenal, pais de Diego e Guilherme; e Vaneide Catunda de Araújo;
c) Luiza(Neli) Mourão Catunda Soares, casada com Narciso Soares, pais de Reno;
d) Maria da Conceição Catunda Frota, casada com Edvaldo Moreira Frota;
e) Inocência Mourão Catunda.

2- Raimundo Catunda Fontenele, casado Maria do Livramento Araújo Catunda, pais de:

a) José Irapuan Catunda, casado com Iracema Sampaio Catunda, pais de: Dario, Jurema, Galba, José Ulisses, Maria Jussenia, Jussara e Antonio Álvaro;
b) Anizia Araújo Catunda, casada com Plinio Moreira, pais de: Maria (Marlene) e Maria Pompéia;
c) Ana Catunda Esmeraldo, casada com Claudio Catunda Esmeraldo, pais de: José Maria, José Helio, Maria do Socorro, José Cláudio, Ana Maria, José Carlos e Silvia Maria;
d) Maria da Conceição Catunda Farias, casada com Raimundo Catunda de Farias, pais de: Lucia Maria, Conceição de Maria, Tereza Maria, José Airton, Maria do Carmo, Maria das Graças, Maria Auxiliadora, Raimundo, filho, Maria de Fátima, Francisco
José, Maria de Lourdes e Antonio Paceli;
e) Francisca Catunda Lobo, casada com Luis Loubert Lobo.

3- Hugo Catunda, Fontenele casado com Maria Martins Fontenele, pais de José Orlando e Francisco Egberto.

4- Dario Catunda Fontenele, casado com Maria do Carmo Araújo Fontenele, pais de:

a) Maria Inocência Fontenele Dias, casada com Manoel Cavalcante Dias pais de: Maria de Fátima, Eugenio Paccelli, Francisca Maria, Francisco e Maria do Carmo;
b) Maria do Carmo Fontenele de Azevedo, casada com Raimundo Irismar de Azevedo, pais de: Vicente Dario, Francisco José, Maria da Conceição, Raimundo Irismar,filho, José Ricardo e José Sergio.

5- Mileto Catunda Fontenele, casado com Raquel Catunda Fontenele, pais de:

a) José Arteiro Farias Fontenele, casado com Maria José Rodrigues Farias,
b) Sebastião Jovito Farias, neto casado com Ana Alice Martins Farias,
c) Antonio Farias Fontenele casado com Maria de Fátima Sousa Fontenele,
d) Francisco Moacir Catunda Fontenele.

6- José Bento, Filho casado com Inez Ribeiro Fontenele, pais de:

a) Maria Helena Fontenele,
b) Maria Inês Fontenele Mourão, casada com Antonio Lisboa Mourão,
c) Maria Marilac Fontenele Machado, casada com José Wilson Machado,
d) José Bento, neto casado com Miraugusta Campos Fontenele,
e) Raimundo Catunda, sobrinho,
f) Inocência Maria Fontenele,
g) Maria de Lourdes Fontenele Mourão, casada com Antonio Wagner Melo Mourão,
h) Fernando Antonio Fontenele, casado com Rosalina Lima Fontenele,
i) Francisco Tadeu Fontenele, casado com Maria de Fátima Medeiros Fontenele,
j) Armando Paulo Fontenele,
l) Clarisse Maria Fontenele,
m) Ligia Maria Fontenele

É válido que se conheça o histórico que antecede a constituição de uma cidade e seu povo, refazer os caminhos sempre foi e será um projeto marcante. Repor aos olhos do mundo as raízes de seu clã é um trabalho de paciência e perseverança. Apresentar às gerações presentes e sucedâneas as sucessivas gerações da linhagem familiar mostra respeito ao passado e a garantia da preservação da história de um povo, de uma cidade, de um estado.

Natal, RN, em 27 de maio de 2005

Ivan Fontenele Meira é cirurgião-dentista e atualmente reside em Natal, capital do Rio Grande do Norte.



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sábado, 28 de maio de 2005

Mãe - Por Paulo Felipe / Rio de Janeiro
Há 75 anos atrás um pequenino ser que já havia se formado por completo veio ao mundo, e já trazia consigo o silêncio dos grandes sábios.

Minha avó contava que ela ao nascer ficou por algumas horas totalmente calada, em silêncio, talvez o sobrenatural já estivesse preparando-a para a grande jornada da vida que iria viver.

Menina de origem pobre, mas nobre, responsável, segundo vó chiquinha meu avô que com muito orgulho trago o nome dele, Paulo, ao chegar em casa entregava-lhe muitas vezes as suas economias, pois já era claro aos 14 anos a sua responsabilidade, trabalhar era a sua diversão.

E uma linda mulher já começava desabrochar, e logo um rapaz de família dita "rica e preconceituosa" se apaixonou perdidamente por ela, e mesmo sem o consentimento da família dele, casaram-se. Foi uma festa simples, mas regada de muito amor e certeza de que ele era o homem da sua vida, o primeiro e o único e ele também já sabia que aquela menina moça de apenas 15 anos seria a grande mulher que ele teria sempre ao lado dele e juntos iriam construir uma grande família.

Na primeira semana de casada foi recebida carinhosamente pela sua sogra que aos poucos percebeu a mulher maravilhosa que o filho havia casado.

Foi mãe aos 16 (dezesseis) anos, de uma linda menina, que se tornou uma grande mulher e seu braço direito, alguém que ajudou a criar a grande família que construía, mas quis a vida de forma cruel leva-lá, para seu total desespero...

Sempre ouvi-a contar a perda da sua filha Necy de forma desesperadora, aos prantos relatava, como ela era e como partiu, não a conheci, mas com certeza foi uma filha maravilhosa que Deus lhe deu e um dia levou de volta, não importa como...

Ela superou esta grande perda, até porque tinha outra filha ainda bebê, que cresceu e fisicamente era quase um clone da que partiu, como se parecia com sua Necy, essa eu conheci, Ah! Como conheci! Inteligente, audaciosa, corajosa, mas, acabou sendo levada pelas agruras da vida e contraindo um mal sem cura, e também partiu deixando um imenso vazio entre nós...

Com certeza nestes setenta e cinco anos de vida perdeu alguns filhos, recém-nascidos, crianças e adultos ... nasceu para ser mãe...

Mas a perda maior foi ver aquele que foi o único homem da sua vida partir tão de repente...

Se abateu muito, mas não deixou-se derrotar...

Fechou-se de luto, vestiu-se de preto durante um ano seguindo a tradição, foi para roça, quis ficar perto fisicamente do seu patrimônio, não queria perder tudo que havia construído de maneira digna e honesta com seu companheiro e sem medo e vergonha voltou às origens, nunca gostou da política e nem de ver papai infiltrado nela, até porque só contribuiu para a morte dele mais rápido, o título de 3ª dama da cidade lhe passou despercebido, pois é uma mulher simples, humilde por natureza e não precisa e nunca precisou da política e de títulos para viver.

Uma heroína, minha rainha, é assim que descrevo minha mãe...

Diziam que papai ia espalhando, mas mamãe ia atrás sempre juntando...


Hoje aos 75 anos (foto acima), lúcida, com o mesmo patrimônio deixado pelo seu marido, um pouco abandonado, também é pedir demais que ela tenha a mesma garra, as pernas já não são as mesmas, o cansaço já lhe bate na porta...

Sozinha por opção e pelo destino da vida, talvez viva aquele ditado popular que diz: os filhos criamos para o mundo.

Eu que o diga, foi aqui fora que percebi o quanto ela é e foi importante para mim, aprendi muito com a escola da vida, mas foi lembrando sempre dos pequenos exemplos e gestos dela que fui crescendo como gente que nasce, cresce, sofre e ama...

Volto ao passado e lembro tanto de como éramos felizes, de como fomos felizes e não sabíamos, sinto falta do seu baião de dois, do cheiro da manteiga que ela fazia de madrugada, de sempre querer dormir no seu quarto, dos banhos que me dava no açude quando ia lavar roupa, hoje posso lembrar de tudo isso e sentir a felicidade de ter uma mãe como ela:

Com um coração como poucos.
Um coração idealista.
Um coração à moda antiga.
Um coração que na realidade está meio calejado, muito machucado.
Um coração meio endurecido, mas que mantém sempre viva a esperança na vida, sendo simples e natural.
Um coração que sai do sério, briga, se expõe com palavras e gestos para defender seus filhos.

Estamos distantes fisicamente mas sempre juntos nas saudades, tristezas e alegrias, aguardo ansioso e cheio de amor e carinho o dia de vê-la aqui nesta selva de pedra ou mesmo na distante Ipueiras.

Conto os minutos para lhe abraçar, beijar, levá-la no médico, passearmos...

FELIZ ANIVERSÁRIO MÃEZINHA!!

UMA DAS COISAS QUE FAZEM A VIDA AINDA MAIS BELA É SABER QUE A SENHORA EXISTE...

TE AMO MUITO...

Seu filho

Paulo Felipe - 25/05/2005


(033)

sexta-feira, 27 de maio de 2005

A MPB evoluiu? - Por Daiane Silva / Rio de Janeiro
Ele, de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde ela mora, canta:

"Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa!
Do amor por Deus esculturada.
És formada com o ardor
da alma da mais linda flor, de mais ativo olor,
que na vida é a preferida pelo beija-flor..."

(SIC)

DÉCADA DE 40

Ele escreve para a Rádio Nacional e manda
oferecer a ela uma linda música:

"A deusa da minha rua,
tem os olhos onde a lua,
costuma se embriagar.
Nos seus olhos eu suponho,
que o sol num dourado sonho,
vai claridade buscar..."

(SIC)

DÉCADA DE 50

Ele pede ao cantor da boate que ofereça a ela uma canção da Bossa Nova:

"Olha que coisa mais linda,
mais cheia de graça.
É ela a menina que vem e que passa,
no doce balanço a caminho do mar.
Moça do corpo dourado,
do sol de Ipanema.
O teu balançado é mais que um poema.
É a coisa mais linda que eu já vi passar."

(SIC)

DÉCADA DE 60

Ele aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço e coloca na vitrola uma música papo-firme:

"Nem mesmo o céu,
nem as estrelas,
nem mesmo o mar e o infinito
não é maior que o meu amor,
nem mais bonito.
Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar,
como é grande o meu amor por você..."

(SIC)

DÉCADA DE 70

Ele chega em seu fusca, abre a porta pra mina entrar e bota
uma melô jóia no toca-fitas:

"Foi assim, como ver o mar,
a primeira vez que
os meus olhos se viram no teu olhar....
Quando eu mergulhei no azul do mar,
sabia que era amor e vinha pra ficar..."

(SIC)

DÉCADA DE 80

Ele telefona pra ela e deixa rolar um:

"Fonte de mel, nos olhos de gueixa,
Kabuki, máscara.
Choque entre o azul e o cacho de acácias,
luz das acácias,
você é mãe do sol.
Linda..."

(SIC)

DÉCADA DE 90

Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária-eletrônica:

"Bem que se quis,
depois de tudo ainda ser feliz.
Mas já não há caminhos pra voltar.
E o que é que a vida fez da nossa vida?
O que é que a gente não faz por amor?"

(SIC)

EM 2000

Ele captura na Internet um batidão legal e manda pra ela, por e-mail:

"Tchutchuca!
Vem aqui com o teu Tigrão.
Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!
Eu vou passar cerol na mão,
vou sim, vou sim!
Eu vou te cortar na mão!
Vou sim, vou sim!
Vou aparar pela rabiola!
Vou sim, vou sim!"

(SIC)

ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS? SERÁ QUE AINDA É POSSÍVEL PIORAR ?????

(...)

POIS NÃO É QUE PIOROU !!!!!!!!

"HOJE É FESTA, LÁ NO MEU APÊ, PODE APARECÊ,
VAI ROLAR BUNDA-LÊLÊ !!!!!!!"

(032)

terça-feira, 24 de maio de 2005

A Sabiá da Mata - Por Dalinha Aragão


Era uma vez uma sabiá que vivia alegre a cantar.

Saltava de galho em galho. Pulava de árvore em árvore saracoteando pela floresta.

Comia frutas colhidas no pé, sementes e pequenos insetos. Quando queria beber, escolhia os mais belos lugares: uma fonte deslumbrante, um rio de águas cristalinas ou até mesmo uma pequena cacimba de água fresca e saborosa.

Em qualquer desses lugares, ela mergulhava a cabecinha, enchia o bico, e olhava para o céu, como se estivesse agradecendo a Deus a beleza de desfrutar daquela natureza abençoada.

Seu lar era a floresta.

Dormia no aconchego da copa das árvores, e lá também fazia o ninho onde ia pôr os ovinhos que em pouco tempo se transformariam em filhotes.

Nada como a liberdade dos pássaros. A mãe alimenta e cuida dos filhotes até que eles aprendam a voar, se alimentar e se defender sozinhos. A partir daí, cada pássaro é dono do seu próprio destino.

E assim a alegre sabiá prosseguia sua jornada, cantando e tendo suas ninhadas.

Certo dia, o inocente pássaro, que não desconfiava das maldades do mundo, caiu numa arapuca.

Numa pequena bacia de vidro transparente, coloridos pedaços de fruta prendiam-lhe a atenção.

A pobre ave, hipnotizada pelo reflexo do Sol no vidro, com as cores da salada saltando-lhe aos olhos, e ainda por cima o cheiro gostoso que o ar espalhava, não pensou duas vezes: mergulhou de cabeça naquela janela aberta, sem se dar conta de que ali estava uma gaiola em forma de alçapão.

Pobre sabiá!

Agora, ela tinha dono, gaiola de ouro, água e comida farta.

Mas, perdera seu bem mais precioso: A liberdade!

Perdendo a liberdade, perdeu a voz.

Sem serventia na casa, o dono pensou: "De que me serve um pássaro mudo?" E soltou a infeliz.

Daquele dia em diante, a sabiá, que ganhara uma nova chance de ser livre e feliz, aprendeu que nem sempre o que nos encanta os olhos é sinônimo de alegria e felicidade.

Publicado no caderno DN Infantil do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Dalinha Aragão é natural de Ipueiras, Ceará.

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domingo, 22 de maio de 2005

A descoberta de "O Sertão" - Por Bérgson Frota / Fortaleza

Clique na imagem acima para ver "O Sertão" ampliado


Há exatamente oitenta e nove anos, era impresso em Ipueiras pelo historiador Hugo Catunda Fontenele, futuro imortal da Academia Cearense de Letras, o pequeno jornal "O Sertão".

No editorial, o redator-chefe que se autodenominava "director" apresentava num longo artigo as pretensões do periódico: "Filho dos viridentes campos dominados pela altaneira Ibiapaba, surge hoje humildemente na arena jornalística mais este obreiro; "O Sertão" que vem colocar-se inteinerato e vigoroso ao lado da verdade e da justiça, defendendo os sagrados direitos da sociedade.

Vem luctar como todo jornal que, defende um ideal sério.
"

Na época Hugo Catunda tinha então dezessete anos incompletos, mas mesmo adolescente, já mostrava seu grande talento para o pioneirismo e a notável capacidade intelectual que lhe acompanhou até a morte, ocorrida em 7 de março de 1980, em Ipueiras.

Impresso durante a I Guerra Mundial, há um artigo intitulado "A Guerra", no qual o autor, utilizando dados de Francisco Lins, escritor fluminense, mostrava os altos custos humanos e financeiros do terrível conflito. "É a triste verdade, e no entanto vivemos quase indifferentes a tantos horrores que de um certo modo nos afectam."

Comentário tão atual nos dias hodiernos.

Outros assuntos de "O Sertão" abordavam a vida social da cidade e notícias curtas, mas abrangentes, do resto do País.

Algumas curiosas: "O ministro da fazenda autorizou o vapor "Íris" a conduzir 1.500 emigrantes de Fortaleza para Belém". Mostrando o grande fluxo de cearenses no período para aquela região.

Noticiou a convenção do Partido Republicano Democrata Cearense, realizada em 24 de fevereiro, não esquecendo de cunhar o nome do representante do município nesta reunião, o farmacêutico Turíbio Mota.

Sobre outros estados "O Sertão" se mostrou pioneiro ao noticiar a abertura da falência da sociedade mútua "A Americana" em Recife.

A divisão na política do Piauí também foi destaque, quando o governador Dr. Miguel Rosa apresentava para lhe suceder o desembargador Antônio Costa enquanto parte da representação federal do estado pleiteava a candidatura do Dr. Eurípedes de Aguiar.

A criação de um novo bispado em Caratinga - Minas Gerais, bem como uma ajuda financeira posta à disposição do governo da Paraíba pelo Rio Grande do Sul, com a finalidade de ajudar flagelados também foi noticiada.

Acusou de forma entusiástica a criação do jornal "Vida de Minas" na terra mineira. Também pequenas notícias como o valor do preço da castanha na Amazônia e o fraco carnaval que se deu em Fortaleza no ano citado.

Na última folha, os anúncios dominavam. As lojas locais como A Libertadora e a Loja do Povo tinham destaque. Entre os menores, um interessante: "Raul Catunda - Prepara com a máxima pontualidade retratos a crayon em ponto grande, (em letras menores), Preços Módicos."

O jornal anunciava que era impresso três vezes por mês, custando a assinatura por trimestre 3000. Cartas ao mesmo deveriam ser endereçadas ao "director".


Clique na imagem acima para ver "O Sertão" ampliado


Estes dados foram retirados da primeira edição de "O Sertão", jornal de que não se sabe se teve outras edições. Encontrado nas ruínas da casa do historiador há dois anos, pouco se descobriu da existência de outros números. O tempo que separa as gerações encarregou-se de silenciar esta pergunta, porém deixou claro para os ipueirenses que com merecimento Hugo Catunda ocupou a cadeira nº 36 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é o Senador Pompeu.

Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro "A Academia de 1894" que o enalteceu dizendo ser: seu estilo de aristocrático aticismo, e outras vezes de sabor euclidiano.

Carlos D´Alge no livro "O Exílio Imaginário" relatou: Nertan Macedo encontrou um brilhante colaborador, e dessa amizade resultou a trilogia: O Clã dos Inhamuns, O Clã de Santa Quitéria e O Bacamarte dos Mourões.

Citações de louvor ao notável historiador foram feitas por Raimundo de Menezes no seu "Dicionário Literário Brasileiro" e no "Dicionário de Literatura Cearense".

A descoberta de "O Sertão" foi então para os ipueirenses e para a comunidade literária cearense um presente, talvez possa ser considerado a primeira obra impressa de um homem que em vida foi conhecido como escritor de punho seguro e detentor de uma linguagem concisa e sazonada pela técnica. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

O autor agradece à Academia Cearense de Letras pela pesquisa biográfica e bibliográfica realizada.

As imagens de "O Sertão" foram cedidas por Bérgson Frota e suas ampliações estão hospedadas no servidor do site Ipueiras.com

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quinta-feira, 19 de maio de 2005

As  Mil  e  Uma  Noites  e  a  Telenovela  Brasileira - Por Bérgson Frota / Fortaleza
Conta a lenda que um rei árabe da dinastia dos sassânidas, ao ser traído por sua esposa, depois de condená-la à morte decidiu que jamais seria traído novamente, para isso todos os dias tinha então uma nova esposa e ao nascer do sol mandava matá-la.

Sarasate, uma linda e culta virgem, ao ser escolhida para esposa, sabendo de seu destino resolveu prender o rei com um conto, mas não um conto qualquer, uma história que distraísse e aguçasse a curiosidade do monarca, estendendo-a até o dia seguinte, onde então continuaria. Assim garantiria que sua vida fosse prolongada, porque cada história além de ser interessante finalizava entrando em outra que já no princípio despertava a curiosidade de quem a ouvisse. E assim se desenrolam as histórias do livro As Mil e Uma Noites.

O texto desta obra, que se supõe tenha sido escrita em Bagdá no século VII, guarda grande semelhança com o gênero folhetinesco que apesar de não ser originariamente brasileiro se desenvolveu com singular característica e sucesso no Brasil, a nossa tão aclamada Telenovela.

Como no famoso livro árabe a telenovela brasileira tem seus vilões e mocinhos, suas "bruxas" e indefesas "vítimas", seus enredos que muitas vezes pendem para o fantástico, personagens e histórias que mesmo do absurdo de suas tramas são sucesso, é o que se pode dizer de Saramandaia, onde uma mulher de tão gorda explodia, um sacristão com asas feitas de penas de pássaros voava e finalmente um homem que das narinas brotavam formigas. Folhetim de audiência absoluta.

Os fantasiosos contos de Sarasate narram a história de Sinbad, um marujo audacioso que nas suas aventuras depara-se com os mais fantásticos monstros. Ali-Babá e os 40 Ladrões que com a frase "abre-te sésamo" entrava em seu esconderijo onde preciosas jóias, frutos de centenas de roubos, eram guardadas e Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, estes são só alguns exemplos das várias histórias encontradas no livro As Mil e Uma Noites.

A telenovela brasileira como nos contos do livro árabe guarda o suspense, o que prende o espectador, aquela espera da surpresa que só o dia de amanhã pode trazer. Tal fascínio que levou o rei sassânida a poupar Sarasate até que após 1.200 noites a tomasse como esposa definitivamente é o mesmo que séculos depois faz o sucesso de nossas telenovelas. Não o simples fascínio de saber o que vai acontecer, mas a curiosidade de como o "acontecer" vai se dar.

Estudiosos questionam um fenômeno que só no Brasil ocorre em se tratando de telenovelas. Apesar de México, Venezuela e até Portugal produzirem e também consumirem o folhetim brasileiro, no Brasil os jornais, precisamente de domingo, antecipam os principais lances das tramas em exibição, tal fato porém não faz com que telespectadores deixem de assistir os capítulos. A antecipação que rádios e jornais diariamente fazem dos mesmos não diminui a curiosidade, ao contrário aguça.

A resposta é que as histórias não só encantam como seus personagens cativam os telespectadores. Há quem prefira que tal personagem mesmo "mau" se dê bem porque gosta do ator ou atriz enquanto outros querem um "castigo" bem trabalhado para o mesmo "porque ele ou ela só fizeram o mau".

A realidade é que tanto como na obra As Mil e Uma Noites bem como nas Telenovelas Brasileiras o mítico-folhetinesco interage com o imaginário popular, a curiosidade pelo desenlace das tramas supera a capacidade ainda interpretativa dos estudiosos do complicado espírito humano. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

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terça-feira, 17 de maio de 2005

O Arco de Fátima - Por Bérgson Frota / Fortaleza

Homenagem a Nossa Senhora de Fátima no local onde hoje fica o Arco


O ano de 1953 foi festivo para o município de Ipueiras, a cidade completava setenta anos de municipalidade e coincidiu com o ano da peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima por todo o Brasil, com alegria os ipueirenses receberam a notícia de que a imagem milagrosa visitaria a cidade.


Às 5 horas da tarde do dia oito de novembro de 1953 a população festivamente recebia o santo ícone, fato inusitado aconteceu neste curto período, um padeiro de nome Vicente, mudo há treze anos, começou a berrar quando a estátua entrava na cidade em procissão dirigindo-se à igreja. À medida que avançava o cortejo, tentava o pobre homem receber da Virgem a graça de falar, a multidão gritava - "Viva Nossa Senhora de Fátima!" - e Vicente fazia grunhidos ininteligíveis. De repente como ato de fé legítima o mudo falou e entre lágrimas passou a gritar com os outros a saudação de louvor, tal fato assombrou e maravilhou os presentes. Treze horas permaneceu na cidade a imagem mariana, mas o milagre marcou tão profundamente o povo que no mesmo ano construiu-se um arco de madeira para homenagear a Santa.

Ao arco iam orar católicos da sede do município e dos distritos, mas não tardou e uma tempestade violenta acabou por derrubar este primeiro "altar", o povo reuniu-se e decidiu por construir um arco de alvenaria (foto logo acima), chamando para esta obra o engenheiro-prático Pedro Frutuoso, mestre que dez anos antes havia construído em um morro da cidade a estátua do Cristo Redentor (leia também O Cristo de Ipueiras). A obra iniciada em 1953 foi inaugurada com grandes festividades em 1954. No alto ao centro do arco a estátua da Santa com uma coroa iluminada foi posta.


Cerimônia de inauguração do Arco de Nossa Senhora de Fátima
Escolha da rainha, das princesas (duas) e das damas (seis) - 1954


No ano de 2004 o Arco de Fátima de Ipueiras completou cinqüenta anos, em todo este período sempre no mês de maio precisamente até o dia treze faz-se romarias e orações em louvor à Santa, mesmo tendo como padroeira Nossa Senhora da Conceição, o povo ipueirense ainda hoje presta uma grande devoção à Virgem da Íria.


Arco de Nossa Senhora de Fátima - Foto de 2005


As imagens da construção do Arco de Nossa Senhora de Fátima pertencem ao acervo pessoal de Edson Morais. O registro da cerimônia de inauguração integra o acervo do autor deste artigo, Bérgson Frota.

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domingo, 15 de maio de 2005

Um céu claro de outono - Por Bérgson Frota / Fortaleza
Foi há poucos anos atrás, precisamente há vinte anos. Já não morava mais em Ipueiras, mas procurado fui para fazer um desenho que seria o carimbo postal representando o centenário da cidade. A princípio relutei, não por falsa modéstia, mas pelo anonimato que sempre procurei. Opondo-me a uma exposição que erroneamente julguei ser de um estrelismo estéril. Quando aceitei estava convencido de que teria que fazer o melhor. Algo que fizesse a diferença, e nessa idéia me empenhei.

Pensava em um símbolo que todos conhecessem e se identificassem. O rio, a ponte, a igreja, o arco e finalmente o Cristo. Foi como se uma luz me iluminasse. Resolvi que o carimbo teria a imagem do Redentor, mas qual ângulo? A questão tomava-me a mente. Mesmo porque se fazia necessário cumprir um prazo já determinado para a entrega do desenho. Creio que na época não tinha idéia da importância do que me estava sendo pedido. E sem pressão portanto, deixei a criatividade aflorar.

Lembro-me dos dias em que comecei a criar o desenho, das noites enluaradas, do céu claro de outono com as estrelas a moldarem um cenário quase místico por trás da imagem do Cristo visto de longe. Criei os traços daquela imagem que no alto mirava sempre ao anoitecer. Queria detalhar o rosto, mas resisti, seria como roubar do povo uma sigilosa homenagem. Decidi que o desenho não estamparia a face para que dessa forma representasse o rosto de todos os ipueirenses. Assim feito, entreguei o trabalho (exposto na imagem abaixo).


No dia do centenário, precisamente no clube da cidade, junto ao valoroso político e filho da terra deputado Aquiles Peres Mota e ao saudoso prefeito Manuel Cavalcante Dias, pressionei pela primeira vez o carimbo num envelope (reproduzido logo abaixo).


A noite daquele dia foi cheia de festejos, pairava no ar uma aura de confraternização que não se presenciava há muito na cidade, já tomada por antigos filhos que para a data vieram. Tudo se transformou numa grande festa que saudava os ausentes e celebrava os presentes.

Mas o tempo não parou, e logo chegamos aos 120 anos. Novamente me vi convidado, não para criar um desenho, seria um artigo, missão de que não me furtei.

Hoje ao concluí-lo sou reportado a uma época tão distante e tão presente. Agora um novo século, muitos dos que naquele dia estavam se foram, deixando de forma indelével sua marca, como se fazendo uma ponte entre a antiga e a moderna Ipueiras.

Despeço-me então como um escultor que entrega ao tempo sua obra. Deixo neste artigo uma homenagem a todos os ipueirenses. Aos que partiram e aos atuais, na certeza de que como uma tocha caminha de mão em mão para no fim vir a iluminar um grandioso altar. A história do povo cearense, com a força dos ipueirenses, lhes outorgará um lugar digno de honra e valor no panteão dos séculos vindouros. *PC*

Texto publicado no livro Prêmio Frota Neto de Literatura - Ano III - 2003

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sábado, 14 de maio de 2005

Genealogia - Por Ivan Fontenele / Natal (RN)
A consciência de família e de tradição é a raiz da cidadania e da auto estima. O conhecimento da origem da família, sua ligação a uma tradição, a uma cultura, a uma religião, é o campo da genealogia. Esse conhecimento é parte fundamental da estrutura de identidade do EU e requisito fundamental também para a autenticidade e maturidade da personalidade de cada um. O propósito destas palavras é estimular o interesse das pessoas, principalmente os familiares, pelo modo como a família e o município cresceram lado a lado.

O estudo da origem da família é despido de qualquer preconceito, idéia pré-concebida, excesso de imaginação, etc. É de fundamental importância produzir a história da família, principalmente pelo envolvimento com a historiografia local. A tradição familiar, fatos da história municipal, estadual e nacional irão adquirir um significado particular quando encontrarmos um antepassado neles envolvido. A herança deixada pelas gerações mais antigas para as gerações mais novas é, sem duvida, um legado que precisa ser cuidado e permanentemente repercutido, para o aprimoramento da cidadania.

Os FONTENELE constituem uma família única no país. Originada a partir de JEAN FONTENELE, engenheiro de Minas, nascido em Melun, na França, e que veio para o Brasil em 1750 integrando uma comissão da ordem da Corte de Portugal, atendendo solicitação do Padre José da Rocha, para pesquisar ouro e prata na serra da Ibiapaba. Fixando-se na aldeia de Viçosa, Jean casou-se com Umbilina Maria de Jesus, filha de Manoel Gonçalves Rodrigues. Deste casamento proveio a numerosa família. São seus filhos: Felipe Benício Fontenele; Rosa Maria Fontenele; Guilherme Fontenele; Agapita Fontenele; Paulo Fontenele; João Damasceno Fontenele; Plácido Fontenele; Ludovica Fontenele e Amaro Fontenele.

Jean Fontenele faleceu no dia 08 de dezembro de 1809, numa sexta-feira, e coincidentemente sua mulher Umbilina faleceu onze anos depois, também no dia 08 de dezembro de 1820, numa sexta-feira. Ambos estão sepultados na Igreja Matriz de Viçosa. Em Ipueiras, os FONTENELE aqui se estabeleceram quando da criação do município, trabalharam, casaram e constituíram família, ajudando a fazer o desenvolvimento espiritual, cultural e econômico desta terra.

José Bento de Oliveira Fontenele, filho de Vicente Ferreira de Oliveira e Ana Maria Fontenele, natural de Sant'Anna, aqui casa-se em 10 de junho de 1889 com Innocencia Amélia de Sousa Catunda, natural de Santa Quitéria, filha de Ludovico Praxedes de Sousa Catunda e Raquel Satyra de Sousa Catunda e constituem numeroso e importante ramo da família Fontenele. São seus filhos: Raul Catunda Fontenele; Raimundo Catunda Fontenele; Hugo Catunda Fontenele; Mileto Catunda Fontenele; Dario Catunda Fontenele e José Bento filho.

Outros vieram a partir do século XX e também deixaram sua contribuição, bem como os que ainda hoje trabalham para o desenvolvimento do município:


Padre Francisco Felipe Fontenele (Monsenhor Fontenele - foto acima, sentado, no centro), filho de Manoel Fontenele e Cândida Fontenele, nascido em 05 de abril de 1898, em Viçosa, assumiu o 10º Vicariato desta paróquia em 08 de fevereiro de 1929, permanecendo até o dia 31 de dezembro de 1949. Aqui repousa na Igreja Matriz.

Alezino Fontenele, filho de Manoel Messias de Vasconcelos e Maria Antonia Fontenele, natural do Amazonas, sobrinho de José Bento Fontenele. Aqui casa-se em 05 de abril de 1934 com Rosa Moreira, filha de Antonio Guilhermino Rodrigues Moreira e Maria Moreira do Espírito Santo.

Jesus Fialho Fontenele Bezerril, filho de Francisco Freire Bezerril e Ana Joaquina Fialho Bezerril. Aqui casa-se em 16 de fevereiro de 1951 com Ana do Amaral Sales Bezerril, filha de João Sales Campos e Maria do Amaral Sales. Foi coletor estadual.


Ivan Fontenele Meira, filho de Flamarion Gonzaga Meira e Jovina Fontenele Meira, Cirurgião-Dentista. Aqui casa-se em 20 de junho de 1974 com Maria Salete Morais Mourão (foto acima, com colar, no centro), filha de Antonio Moacir Mourão e Melo e Francisca Morais Mourão. São filhos do casal: Ivens, Afra e Áurea.

Dr. Eduardo Fontenele, atual Juiz de Direito da Comarca de Ipueiras.

Em outra oportunidade daremos continuidade ao desmembramento deste ramo familiar e queremos solicitar o compartilhamento destas informações pedindo aos que leram este artigo e dispuserem de dados que possam complementar este trabalho, por gentileza, enviem os dados para: ivanfmeira@hotmail.com. Agradeceria comunicações que pudessem divulgar e acrescentar dados a respeito desta pesquisa. *PC*

Referências bibliográficas:

Fontenele, Antonio Batista. A Marcha do Tempo - Os Fontenele, 2001.

Almanaque do Ceará, 1952.

The Historical Research Center, Francisco Laércio Vasconcelos Fontenelle - Tradutor, 1998.


Ivan Fontenele Meira é cirurgião-dentista e atualmente reside em Natal, capital do Rio Grande do Norte.

As fotos deste artigo pertencem ao acervo pessoal de Edson Morais

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quinta-feira, 12 de maio de 2005

Ipueiras está de luto - Por Carlos Moreira / Ipueiras


Morreu nesta manhã de quinta-feira, dia 12 de maio, na "terra do sol" - Fortaleza -, Edmundo Bezerra de Medeiros (imagem acima), aos 91 anos de idade. Pai exemplar, político com pensamentos udenistas, conservando sempre a ideologia partidária, foi prefeito de Ipueiras nomeado pelo Governador Faustino de Albuquerque em 1947 e vereador mais votado em três legislaturas. Foi ainda promotor adjunto e auditor das Escolas Públicas Estaduais.

A figura do correspondente do interior marcou muito a vida dos jornais brasileiros. Foi o caso de Edmundo Medeiros, que se fez porta-voz da comunidade ipueirense. No início dos anos 50, ele já informava através do O POVO e foi correspondente dos Correios e Telégrafos durante vários anos. Em uma época em que não existia nem telefone na cidade, Edmundo dava conta de manter a colônia ipueirense bem informada. Autodidata, ele é da leva de jornalistas que chegaram às páginas do O POVO ao tempo de Paulo Sarasate.

Homem de gosto simples, de atitudes bem pensadas e um profundo amante do interior, Edmundo em toda a sua vida sempre se negou a deixar Ipueiras, por acreditar que é no campo e nas selvas onde a vida se renova.

Edmundo Medeiros foi criado num ambiente ítalo-brasileiro de rígida moral. Aos poucos o leitor, o intelectual e o jornalista desenhavam formas de uma imprensa democrática e popular sem contradições. É bem provável que tenha sido o primeiro grande jornalista de Ipueiras a descobrir a vocação do veículo para o serviço ao cidadão e para a educação da sociedade. Outros, antes e depois dele, enfatizaram uma suposta missão da imprensa de produzir a transformação social. Em meados do século passado, ele deve ter sido dos primeiros, e não apenas em Ipueiras, a procurar mostrar a variedade de caminhos, em vez de apontar uma única opção. Na travessia das décadas de profundas transformações sociais, localizadas e generalizadas, a mídia total mantinha, aos olhos de Edmundo Medeiros, a meta de simultaneamente seduzir o leitor.

O prefeito de Ipueiras, Raimundo Melo Sampaio ("Nenem do Cazuza"), decretou luto oficial por três dias. *PC*

Carlos Moreira - Editor do blog Primeira Coluna.


A imagem acima é uma pintura exposta na Prefeitura Municipal de Ipueiras.

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quarta-feira, 11 de maio de 2005

Águas Retiradas - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Pracinha do interior - "virtual", a diferença. Ali, gerações nos reunimos, em papos de "suspiros poéticos e saudades", mesclados à dor do povo, em súplicas por chuvas a São José.

Jornais estendidos ao chão falam de águas transpondo-se, de bacias interligando-se, feitas caminhos a tingir de verde os sertões. Pessimista, alguém reclama: "Aqui, somos, a partir do nome - "Ipueiras", em tupi -, 'águas retiradas'!" Mais otimista, outra voz dá conta de projeto: o açude "Lontras", a dormir no Dnocs, à espera de "decisão política". Mais realista, alguém propõe a construção do "Cupira", mais modesto. "Faltam recursos" - avisa o prefeito. "Descaso!" - uma senhora revolta-se.

Escândalo, os elevados índices de indigência e pobreza absoluta de mais da metade da população. Sardônico, alguém cobra: "E cadê as apregoadas indústrias de Tasso e de Ciro, que, por aqui, não apareceram?" Os mais otimistas apontam progressos: na educação básica e na queda da mortalidade infantil. E outros, a decantar o potencial das serras úmidas, das macambiras, da cultura e do capital humano da terra. Mais pragmático, alguém grita: "E por que não uma associação?" E uma jovem: "Sou funcionária no Congresso Nacional. Panfletagem? É comigo mesmo!". A idéia é faísca a se alastrar...

Fico a matutar. Uma pequena cidade, em seu atraso, a converter-se em emblema das populações esquecidas: um "sítio" às margens de uma "www", na Web, www.ipueiras.com. Ao lado, a virtual "pracinha": ipueiras@grupos.com.br, todos a se dar as mãos. O local fazendo-se global, socorrido por este. Tempos novos. Que se lembrem disso nossos políticos! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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segunda-feira, 9 de maio de 2005

Central do Brasil: 150 anos - Por Milton de Medonça Teixeira / Rio de Janeiro


Onde hoje se encontra o edifício da Central do Brasil (foto acima) era, no ano de 1753, o local onde foi fundada a Igreja de Santana. Suas festas eram concorridas e para ela afluíam multidões nos dias comemorativos da santa.

Um século depois, em 1854, demoliu-se o templo para ali se levantar a primeira estação de estrada de ferro urbana do Brasil. A empresa responsável por esta obra foi a Companhia Estrada de Ferro D. Pedro II, cuja primeira diretoria era composta pelo Vereador Jorge Haddock Lobo, Comendador Jerônimo José Teixeira, Alexandre Siqueira e Cristiano Benedito Ottoni, engenheiro ilustre e responsável por esta ferrovia.

A primeira via férrea do Rio de Janeiro teve sua origem na Lei nº 641, de 26 de junho de 1852, que autorizou o Governo Imperial a "conceder a uma ou mais companhias a construção total ou parcial de um caminho de ferro que, partindo da Côrte, vá terminar nos pontos das Províncias de Minas Gerais e São Paulo que mais convenientes forem".


Criada em 9 de maio de 1855, sob a denominação de Estrada de Ferro D. Pedro II, e Central do Brasil desde o advento da República, são, no entanto, ambos os nomes usados indistintamente até hoje. O prédio da estação ferroviária foi inaugurado pelo Imperador D. Pedro II em 28 de março de 1858, e dali partiu uma estrada de ferro com 48 quilômetros, estendendo-se até a estação de Queimados. Com essa iniciativa, igualmente inaugurou-se o crescimento da cidade em direção à zona norte, com a criação de diversas estações, em torno das quais iriam surgir pequenos agrupamentos de casas, que hoje constituem os numerosos e populosos subúrbios da mesma.

Assim foi que, juntamente com a Estação D. Pedro II, surgiram no mesmo ano as de São Cristóvão, Cascadura e Deodoro, seguidas das do Engenho Novo (que era uma simples parada) e São Francisco Xavier, em 1861; Todos os Santos, em 1868; Engenho de Dentro, em 1871; Cancela (hoje Piedade), em 1873; Sampaio, Derby Club (hoje Maracanã) e Rocha, em 1885; Quintino, em 1886; Encantado, Méier e Mangueira, em 1889; e, finalmente, Marechal Hermes, em 1908.


O prédio antigo da Estação D. Pedro II era um sobrado baixo, sendo extensamente reformado até 1937, quando se decidiu construir novo prédio. O projeto da atual estação foi escolhido em concurso fechado, sendo vencedor o que foi elaborado em estilo art-déco pelo arquiteto Roberto Magno de Carvalho.


Quando foram construí-lo, verificaram que o mesmo não se encaixava no terreno proposto. Tendo falecido o arquiteto Carvalho, adaptou o projeto ao sítio proposto o arquiteto austríaco Adalberto Szilard, que modificou muito internamente a estação, sem sacrificar o aspecto externo.

Conforme foi sendo construída, demolia-se a antiga, até a inauguração pelo Presidente Getúlio Vargas em 1941. Sua torre ostenta o que foi considerado à época o maior relógio de quatro faces do mundo. *PC*

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domingo, 8 de maio de 2005

Visão Severina - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Severino! O nome nos faz descer ao "severo", em sua raiz. E, dele, o poeta João Cabral de Melo Neto fez adjetivo, ao caracterizar, como "severina", a "morte e vida" dos nordestinos. Agora, porém, o termo nos invade a crônica política. E, desta feita, a nos chocar a intelligentzia nacional, com o atraso, o nepotismo e o fisiologismo, em surto expressivo do "baixo clero", sob a reerguida bandeira do clientelismo político.

Esta, a impressão de início. Aos poucos, porém, notamos que os temíveis tentáculos fisiológicos sobre a coisa pública talvez nem sejam a tônica maior. Ao contrário, Severino, rico ao entrar na política, hoje se diz alguém que sofreu um processo de "empobrecimento ilícito"... O que pretende é mudar o discurso político, hoje cheio de enganosos rodeios, tornando-o transparente, curto e grosso, sob o tom do "pão, pão; queijo, queijo", "o legislativo não é supositório do executivo" e "o presidente não pode ser bezerro dos que o encurralam, não o deixando governar".

No fundo, o recado maior e direto de Severino: o povo quer carinho e portas abertas. De alguma forma, um contraponto aos partidos que se opuseram, em extremo, ao clientelismo. Sobretudo os que, no dizer de Brizola, herdaram o moralismo estreito da antiga UDN: a "de tamancos" (o PT) e a "de salto alto" (o PSDB), montados em suas arrogâncias, esquecidos do povo.

Dos sertões nordestinos às altas rodas do PIB paulista, Severino vem sendo abraçado por todos. Nas ruas, todos lhe têm atenção e carinho. Justo o que reclama da atual administração, de ministros indiferentes e presidente sem as rédeas de seu próprio governo. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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sábado, 7 de maio de 2005

I Jogos do Trabalhador - Por Carlos Moreira / Ipueiras
Ao som da Banda de Música Joaquim Catunda Sobrinho iniciou-se o primeiro Jogos do Trabalhador de Ipueiras, torneio realizado no Ginásio Coberto Arimateia Catunda, dia 30 de Abril, com as equipes do voleibol.

No dia primeiro de maio apresentaram-se 16 equipes de futsal, com representação de todos os seguimentos: carreteiros, moto-taxistas, servidores públicos, comerciantes, dentre outros.

Realizado pelo prefeito "Nenem do Cazuza", com a coordenação do diretor de esportes da Prefeitura Municipal de Ipueiras, Erivelton Oliveira, o campeonato foi um sucesso. O Ginásio Coberto Arimateia Catunda teve um público de aproximadamente mil pessoas durante o torneio. Jovens, crianças, casais de enamorados, todos prestigiando o trabalhador.

Há muito tempo não víamos o Ginásio Coberto repleto de tanta alegria, de tanto prazer. Cada um torcendo e vibrando pelo seu time, gritando, envolvendo-se com cada gol que era feito - no final todos eram de placa, sempre deixando um gostinho de quero mais.


A torcida vibrante e eufórica gritava: "campeão, o morro é campeão" - vitória espetacular da equipe dos carreteiros, destaque no time para "Pequeno", Paulo Roberto Marques de Pinho, artilheiro do campeonato. A equipe da Prefeitura foi vice-campeã.

Com a vitória da equipe dos carreteiros, ascendeu ainda mais o poder de empolgação, de valorização dos mais humildes. A representatividade dos atletas na quadra valorizou e fortaleceu o ego de cada jogador, de cada família presente. A diretoria de esportes distribuiu o prêmio para o 1º colocado com R$ 150,00, para o 2º, R$ 100,00, e para artilheiro e goleiro menos vasado, R$ 50,00 cada, sendo que todos ganharam troféus.


No dia 1 de Maio, dia do trabalhador, venceu por merecer a melhor equipe, a equipe dos carreteiros (foto acima). Incentivadas e embaladas com o resultado do I Jogos do Trabalhador, as equipes já se sentem fortalecidas para participarem de outros campeonatos no município e na região.

Ipueiras, "águas retiradas", valorizando cada vez mais o esporte amador e profissional. *PC*

(020)

terça-feira, 3 de maio de 2005

A lenda de Luara - Por Dalinha Aragão


Contam que há muito tempo, numa cidadezinha do Interior do Ceará, às margens do Jatobá - rio que corta a cidade de Ipueiras -, nasceu uma linda menina de olhos e cabelos cor de mel.

A menina, que recebeu o nome de Luara, foi crescendo, crescendo, e em pouco tempo transformou-se numa bela jovem.

Reza a lenda que Luara era filha do rio e afilhada da Lua, gozando, portanto, da proteção especial deles.

Não eram poucos os que diziam que sempre em noites de plenilúnio, Luara aparecia entre oiticicas e ingazeiras, vestida em gotas de orvalho refletindo a luz do luar.

Por onde passava, o cheiro de flores silvestres tomava conta do ar.

Era assim que Luara encantava os bosques com sua presença.

Certo dia, o Jatobá, por falta das chuvas, o que ocorre de tempos em tempos naquela região, secou por completo.

Para o azar de Luara, a Lua andava triste, por não poder mirar-se nas águas do velho rio, e, em sinal de protesto, ocultou-se atrás de uma nuvem negra. Deixando a bela jovem entregue ao seu próprio destino.

Desprotegida, sem se dar conta, a bela da noite prosseguiu em sua jornada noturna, riscando as matas com melodias que a todos encantava.

E foi assim que Luara perdeu-se na grande floresta.

A Lua, ao perceber a situação, sentiu-se responsável pela sorte de Luara. E, tentando minimizar o dano causado por seu descuido, resgatou a sua pupila num cavalo branco alado.

Conduzindo-a entre raios de luar ao seio de seu reino.

Durante nove luas, não se ouviu falar de Luara. Ouvia-se apenas o lamento triste dos pássaros e animais que a amavam.

As lágrimas foram tantas, que o Jatobá roncara forte outra vez, chegando a transbordar.

A Lua, feliz, voltou a se ver no espelho das águas.

Era tanta felicidade, que a madrinha, radiante, não tardou a devolver, às margens do velho rio, sua bela afilhada, trazendo vida nova para o povoado.

Asseguram os que sabem da lenda que depois o filho de Luara não quis acompanhar a mãe.

A bela da noite ganhara mais um protetor, pois seu filho era, nada mais nada menos que São Jorge, o guerreiro que vive na Lua, montado em um cavalo branco. Ele podia ser observado por todos, a olho nu, quando esta se mostra inteira no Céu. *PC*

Publicado no caderno DN Infantil do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Dalinha Aragão é natural de Ipueiras, Ceará.

(019)

segunda-feira, 2 de maio de 2005

As Carnaúbas de Ipueiras - Organizado por Bérgson Frota
No começo eram só carnaubeiras.
Crescendo entre os morros que cercavam aquele vasto vale cortado por um tímido rio.

De longe ouvia-se o farfalhar dos leques quase imperiais da "árvore da vida".

Depois chegaram os homens, mulheres e animais.

E o sítio que era um terreno de áreas empoçadas e farto barro-de-louça virou fazenda, até uma capela ganhou.

E as carnaubeiras?

Diminuíram, mas ainda eram em grande número.

Tinham serventia em quase tudo na região. Parecia que delas nada se perdia.

Assim era nos primeiros anos Ipueiras, uma fazenda que tornava-se com o tempo cada vez maior.

Logo, mais e mais moradores chegavam e não demorou para a antiga fazenda virar vila.

As carnaubeiras continuaram, embora em menor número, porém mais numerosas nos arredores.

Formavam um cinturão arbóreo em torno do povoado.

O carnaubal parecia ser o mais belo do mundo.

No fim da tarde, em cada carnaubeira pousava uma graúna, e quando a sombra da serra azul deitava na região seu manto, a grande orquestra se iniciava, vinda das copas soberbas e virentes uma maviosa canção, assim a "árvore da vida" aninhava na noite fria as aves canoras.

Quando a vila tornou cidade, a "cidade das carnaúbas", começou a transformar-se. As parcas ruas ainda mantiveram como adorno algumas carnaúbas soltas no meio do tempo, até mesmo as que por necessidade pediam o corte foram mantidas.

Sentia-se no povo um instinto antigo para preservá-las.

Havia bairros em que os carnaubais virentes, com hastes ao céu erguidas, movendo sem rumo ao arrepio do vento, desafiavam o tempo com seu verde gaio, verão e inverno inalterados.

As esbeltas árvores de porte tão elegante quanto festivo formavam um bucólico panorama quando ao sabor do vento forte que dobrava o vale em direção à Ibiapaba azul ensaiavam uma dança bela, quase tocando uma na outra com suas copas altivas.

O progresso trouxe calçamentos, e na cidade só restaram as carnaubeiras que por sorte se situavam nas nascentes pracinhas, o resto era derrubado, e somente na lembrança dos mais velhos ficaram os vultos das árvores já ausentes.

Bem poucas carnaubeiras sobraram, como remanescentes de um passado longínquo. Lá longe, onde as luzes da cidade parecem estrelas, como uma tribo de território perdido, ainda restam muitas delas. E nas suas copas como no passado aninham-se lépidas graúnas.

O tempo passa e a "árvore da vida" resiste, como se lembrando o passado distante, longe da cidade que outrora foi sua. Plantadas no sertão adusto, desafiando o sol tórrido do verão, resistindo aguerridamente na terra mãe que lhe gerou a semente.

O texto acima é uma miscelânea em homenagem a quatro obras de Jeremias Catunda, jornalista, poeta e contista ipueirense. Nele há trechos das poesias "A Carnaubeira" e "Sonho Verde-Escuro", das crônicas "Em louvor à Minha Terra" e "Ipueiras antes, lagoas e carnaubal" (esta já aqui publicada).

Bérgson Frota

(018)