quarta-feira, 27 de abril de 2005

Iracema: 140 anos - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Duas formas de ler a vida e o mundo opunham-se na antiguidade: o logos ("história real") e o mythos ("história imaginada"). Tais formas hoje se abraçam. Os mitos, elevados a símbolos, são prenúncios do logos (a ciência).

Em nossa "história real", a pecuária marcou-nos, de masculino, o chão cearense: na amplidão da caatinga, a rês. Atrás dela, o vaqueiro. Entre os dois, apenas a mística e a solidão. Mas foi Alencar que nos legou a "história imaginada" dos subterrâneos de nosso inconsciente coletivo: Iracema, "a porção feminina da alma nacional", a nos abrir sinuosas e sedutoras sendas, nas pegadas da serpente e de Eva, rumo ao solidário. Iracema saída dos banhos: das sombras, dos ventos, do sol. O "aljôfar d'água" (das chuvas, lagoas, cascatas, rios e mares) a rorejar-lhe o corpo, salpicado de verde: o dos "mares bravios", da relva e da selva, da alma cearense.

História de amor, sim, entre Iracema e o guerreiro branco! Mais que isso, o decantar da hospitalidade alencarina. Autêntico tour por "onde canta a jandaia", as "alvas praias", serras, sertões, a rica toponímia, rituais, culinária e cultura, a ter por guia "o pé grácil e nu" de Iracema. Aí, a sugestão de novos conceitos, mapeamento e roteiro para o turismo, ora caído no vil dueto de "gringos e prostitutas"!

Iracema, 140 anos! Justo quando o Ceará se repensa em seus caminhos, de sintaxe e perenização do verde e das águas. Tudo para que "Moacir, o filho da dor" aqui finque morada. O romance conclui-se: "O primeiro cearense ainda no berço emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?" Persiste a reflexão! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

(016)

sábado, 23 de abril de 2005

O Cristo de Ipueiras - Por Bérgson Frota

Inauguração da estátua do Cristo Redentor

"Ipueiras é rodeada por uma cadeia de morros e serrotes com a perfeita forma de uma ferradura, assim distribuída: inicia-se no leste com o 'Morro do Açude', seguido pelo dos 'Frios', 'Saquinho' (o mais alto de todos) e o do 'Cristo', onde se assenta a estátua do Redentor."

O texto acima, retirado do artigo Ipueiras antes, lagoas e carnaubal, do jornalista Jeremias Catunda, atesta de forma concisa o poder que a imagem do Cristo exerce no imaginário coletivo do povo ipueirense.

O início de sua construção deu-se no final de 1942, sendo concluído em 1943, para comemorar os sessenta anos da criação do município, portanto treze anos após a inauguração da colossal estátua do Corcovado. Guarda porém o Cristo ipueirense certas particularidades que o distinguem do ícone carioca.

O planejamento requereu do engenheiro prático Pedro Frutuoso do Vale um trabalho de pesquisa e técnica não só de conhecimento do solo, que teve como fundação 15 metros de profundidade, como de moldes precisos para concentrar o concreto e transferir, na época, materiais para o topo de um morro que foi escolhido não por ser o mais alto, mas por ser o mais próximo do centro do município.

Uma estrada que contornava as costas do morro de 120 metros de altura foi aberta e assim começou-se o transporte do material para a base na qual se assentaria o monumento.


Pedro Frutuoso concebeu para a criação da obra um desenho que de forma clara distanciaria o Cristo de Ipueiras de outros já construídos. Se a idéia por si só não era original, já que a construção inspirou-se na da imagem feita no Rio, tendo então a mesma posição, de braços abertos abençoando a cidade, não teria no entanto o estilo art-deco no qual foi trabalhado o primeiro.

O engenheiro tirou como modelo traços do ícone da tradição bizantina feito no século XV. O Cristo Pantocrator (do grego "Todo-Poderoso" - imagem logo abaixo).

Seus traços podem ser definidos como: rosto alongado, sobrancelhas arqueadas, olhos grandes e abertos voltados para o espectador, pois não somente nós o contemplamos mas Ele também nos contempla. Nariz longo e delicado, a barba comprida terminando em ponta arredondada. Seu pescoço é grosso e forte, simbolizando que Cristo quer soprar seu Espírito, sua cabeleira é vasta, representando sua sabedoria. A boca pequena indica o silêncio, o que acentua a divindade do Verbo encarnado.


No que toca às vestimentas, o imation (manto) cobre-lhe todo o corpo, representa sua humanidade, já que até os pés são cobertos (o manto arrasta-se pela terra), o chiton (túnica) cobre-lhe os ombros e oculta junto com o manto o peito, fazendo com que o coração embora não visível seja percebido pela expressão facial.

A cor da estátua é e sempre foi branca, tendo como altura 12 metros, distanciando entre os extremos dos dedos 7 metros. Assenta-se sobre um pedestal em forma de morro de 2 metros de cor cinza escuro.

O monumento à noite é iluminado por fortes luzes de tonalidade azul lembrando uma presença divina a velar por toda a cidade.

Durante o dia, pode-se ver em torno um vasto canteiro de plantas de diversas espécies que dão um colorido especial à obra. É conhecido como o horto do Cristo.

Ergueu-se portanto no sertão cearense há sessenta e dois anos um belo monumento em homenagem à religiosidade ipueirense, símbolo da cidade que neste ano comemora seus 122 anos de municipalidade, recebendo a todos de braços abertos, coroando com o esmero da benção o povo cearense, convertendo-se no Cristo dos sertanejos, o Cristo do morro, o Cristo da Caatinga. *PC*


Estátua do Cristo - Foto de 2005

As fotos da inauguração da estátua do Cristo e da missa lá celebrada pertencem ao acervo pessoal de Edson Morais.

(015)

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Telenovela: invenção que deu certo - Cadernos da Comunicação
Desde o seu nascimento, a TV Tupi carregou a sina do pioneirismo. A primeira televisão da América Latina inventou os primeiros programas de televisão da América Latina. Sem parâmetros, teve que criar na base do erro e do acerto. Foram muitos os acertos, mas os erros e trapalhadas também somaram grande número. Tanto que, dos diretores aos funcionários, a maioria dos que passaram pela emissora de chateaubriand concorda que a crise da Tupi nasceu junto com ela e durou seus 30 anos de vida.

Muitos afirmam que a emissora só era imbatível na década de 50, quando praticamente não havia concorrência. Era a época dos teleteatros e do famoso Repórter Esso. "A Tupi foi a universidade da televisão brasileira. Todos os grandes nomes que hoje fazem a TV passaram por lá, como Boni, Carlos Manga, Chico Anísio, Trapalhões", lembra Hilário Rodrigues, 72 anos, ex-diretor de jornalismo da Tupi Rio.

A grande invenção da emissora, cuja fórmula dá certo até hoje, foi a telenovela, uma transposição para a televisão das novelas de rádio. O primeiro e maior sucesso, O direito de nascer, ficou no ar quase um ano, de 7 de dezembro de 1964 a 3 de agosto de 1965, ajudando a distrair as famílias brasileiras, que viviam os primeiros meses do regime militar.

(...)


Programa exclusivo da Tupi, os concursos de misses mobilizaram o Brasil durante décadas. Todos os anos, entre junho e julho, entrava no ar, às 22h30min, a disputa do Miss Brasil. A festa levava ao Maracanãzinho cerca de 30 mil pessoas, a maioria vestida com traje de gala. Em casa, o público também vibrava e torcia por aquela que considerasse a melhor representante da beleza nacional.

As moças vestiam maiôs Catalina e tinham um sonho ainda maior que conquistar a faixa de Miss Universo: arranjar um casamento com um bom partido. Mas, ser eleita a mais bela não era nada fácil. Para exibir o cetro e a coroa para as câmeras, a jovem tinha que medir nada mais nada menos que 90cm de busto e quadris, 60 de cintura, 21 de tornozelo e, no mínimo, 1,70cm de altura. E, o mais importante, precisava ser virgem.

Bisavô de sucessos atuais como o Show do Milhão, de Sílvio Santos, O Céu é o Limite podia fazer milionários aqueles que respondessem corretamente às perguntas formuladas sobre um determinado tema. Nos estúdios da Tupi do Rio, o apresentador J. Silvestre e a atriz Ilka Soares, garota-propaganda da Varig, patrocinadora do programa, recebiam os participantes, cujas memória e rapidez de raciocínio seriam testadas. Leia a íntegra (em PDF). *PC*

Texto de Patrícia Alves do Rego Silva (TV Tupi, a pioneira na América do Sul - CADERNOS DA COMUNICAÇÃO* - SÉRIE MEMÓRIAS)

Reprodução gentilmente autorizada por Regina Stela Braga, editora-executiva dos Cadernos da Comunicação.

*Os Cadernos da Comunicação são uma publicação da Secretaria Especial de Comunicação Social da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

(014)

terça-feira, 19 de abril de 2005

Ipueiras dos Tupi Guaranis - Por Carlos Moreira / Ipueiras
O trabalho arqueológico tem as suas durezas, as suas asperezas, envolve muita atitude física. A arqueologia tem dado contribuição importante para o processo de reconhecimento da história do povo. É uma maneira de confirmar ou de contestar a versão oficial da História.

Estamos vivendo em um mundo globalizado e a cada dia o fluxo alucinante de informações (através dos meios de comunicação) deixa tudo mais confuso. Há um certo mal-estar relativo à identidade do povo, e à medida que esta vai sendo recuperada, aumenta também o contato com a maneira de viver das gerações anteriores, especialmente na região em que vivemos. Isso pode fortalecer muito o sentimento de origem.

Ipueiras começa a dar uma lição de reconhecimento da importância da identidade indígena, uma população que tinha modo de vida próprio e uma arte muito característica, além de uma maneira peculiar de se relacionar com o meio ambiente.


A arqueóloga, antropóloga e professora Marcelia Marques (foto acima), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), esteve no município de Ipueiras, interior do Ceará, no último dia 07 de Abril. A vinda se deveu a um achado de cerâmicas, peças e vasilhas no distrito de Nova Fátima.

Em entrevista ao Primeira Coluna, a professora Marcelia falou da influência das culturas européia e africana e da população indígena. É o que se chama de miscigenação cultural, elemento básico da constituição do povo brasileiro. "Nós somos frutos de uma série de experiências culturais", afirmou Marcelia. Ela aborda também os hábitos e gostos pelos produtos derivados da mandioca e o conhecimento das ervas - a fitoterapia é herança dos populações Tupi Guaranis.

Primeira Coluna: Na visita feita ao distrito de Nova Fátima foi detectado, através de vasilhas encontradas no subsolo, que índios Tupi Guaranis residiam na região. Houve nessa região um grande aldeamento Tupi?

Marcelia Marques: É bem possível. Pessoas que residem em Nova Fátima dão notícia de vasilhas encontradas quando estavam arando, roçando a terra pra poder cultivá-la. Geralmente são vasilhas que não estão tão bem preservadas, até pela fragilidade do material, por serem de argila, de barro, e quando ocorre o contato da enxada com essas peças há um atrito muito grande e geralmente se fragmentam, se quebram. Pra nós que estamos realizando estudos nesse sentido é possível remontá-las e reconstituir esses fragmentos a partir do resultado da peça inteira.

Primeira Coluna: Na localidade de Buriti, o descendente de índio "Senhor Braz Martins de Oliveira" (foto logo abaixo), 73 anos, relata que a sua tataravó foi pega a dente de cachorro - É um demonstrativo de que existiam índios selvagens?


Marcelia Marques: Acredito que antes de ser um demonstrativo da existência do que se considera índios selvagens, ali está sendo manifestado um choque de culturas diferentes, porque essas populações indígenas, pelo que se sabe, eram extremamente sensíveis. A maneira pela qual respeitavam os limites da natureza, a maneira como eram educados os seus filhos. Os relatos demonstram que os índios não agrediam seus filhos, ficavam simplesmente observando-os. Se nós pensarmos em selvageria, muitas vezes é uma herança de certos preconceitos pra lidar com pessoas que são diferentes de nós. Existe uma tendência na sociedade de um modo geral, em todas as culturas, se chama de etnocentrismo - uma determinada população considerar-se o centro das referências. Quando os índios se deparavam com populações que tinham hábitos diferentes, tinham uma outra relação, de certa forma sedentarização, fixando-se na terra. Pessoas que talvez fossem fáceis de ser contatadas, havia essa tentativa por vezes de pegar à força. A selvageria na grande maioria era dos brancos tentando aprisionar os índios. Os mesmos teriam muito a nos ensinar, pelo modo de se relacionar com os animais, a vegetação, as águas e entre eles.

Na população indígena não havia uma distinção do que era arte. Uma simples assadeira para preparar o beju era pintada . Existia arte no cotidiano.

Primeira Coluna: As peças encontradas em Nova Fátima têm um valor histórico e cultural... menos financeiro.

Marcelia Marques: É importante que tenhamos conhecimento que o valor é histórico e cultural. É um valor para compreendermos como foi todo esse processo de ocupação de gente que viveu aqui nessa região.

Primeira Coluna: Pinturas rupestres foram encontradas na localidade de Bacupari (foto logo abaixo), no "pé de serra". Como identificá-las?


Marcelia Marques: Para se tornar mais popular, "pinturas rupestres" significa pinturas na pedra. São vestígios arqueológicos que de certa forma são frágeis também, pinturas feitas nesses talhados, serras, com um mineral chamado óxido de ferro. Essas pinturas estão sujeitas ao desgaste do tempo. É necessário termos cuidado com essas pinturas do passado do nosso país. Muitos de nós ainda são descendentes indígenas.

"Vai ser difícil um brasileiro que não tenha uma descendência Tupi Guarani", conclui.


Da esquerda para a direita, subindo: Erivelton Oliveira (diretor de esporte - PMI), Carlos Moreira (editor do Primeira Coluna), Antonio Neto (diretor de cultura - PMI), professor Gutembergue (diretor da escola de Bacupari). No centro: Marcelia Marques (antropóloga da UECE). Abaixo, de mochila: José Welton (guia turístico). E à direita, com lanterna: Leandro (historiador da UECE). *PC*

(013)

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Ipueiras antes, lagoas e carnaubal - Por Jeremias Catunda
No seu abalizado trabalho "Os Três Grandes Capitães da Antigüidade", César Zama diz no prefácio que ninguém pode fazer História sem recorrer mais aos mortos do que aos vivos. Fazemos nosso o pensamento de Zama, nesta modesta síntese sobre as nascentes telúricas de Ipueiras, com o criterioso e seguro testemunho do saudoso historiador Hugo Catunda, que catalogava com minúcias datas, fatos, fastos e eventos que dissessem dos primeiros passos do nosso torrão. Por isso é no que vamos nos louvar.

Ipueiras é rodeada por uma cadeia de morros e serrotes com a perfeita forma de uma ferradura, assim distribuída : inicia-se no leste com o "Morro do Açude", seguido pelo dos "Frios", "Saquinho" (o mais alto de todos) e o do Cristo, onde se assenta a estátua do Redentor.

No fundo, poente, distante cinco a seis quilômetros já se demora a serra da Ibiapaba, que vem ladeada a curta distância para o nascente pelos serrotes "Mandú", "São Roque" e "Lamarão".

"Morro do Açude" (primeira foto - fundo à direita) e Serra da Ibiapaba

A cidade cujo nome tupi-guarani significa água-presa, estagnada, etc., reflete bem o que foi num passado bem distante.

O professor Hugo Catunda, ouvindo os mais idosos, situava nesse espaço que falamos acima com o traçado de uma ferradura a localização de um imenso carnaubal, frondado às margens de quatro lagoas, com as seguintes localizações : lagoa grande no pé do hoje chamado "Morro do Açude", açude mais tarde feito pelo braço escravo na seca dos três setes (1777) , tornado público e agora reformado e aumentado pela edilidade.

No bairro "Vamos-Ver", terras da família Tavares, a segunda lagoa. Bairro da Estação Ferroviária, a terceira, imprensada entre a ferrovia e o espaço onde hoje se situa o Campo de Aviação, e finalmente a quarta, a segunda em tamanho, nas Carnaúbas (bairro), paralela aos trilhos, estendendo-se na extensão das barrancas do rio Jatobá.

Cercando e confundindo-se com esse aglomerado de lagoas, um exuberante carnaubal que deveria dar à paisagem, além de um bucólico panorama, formava com as copas de um verde-gaio um alto tapete onde o cântico das graúnas misturava-se com o bater das asas das brancas garças pairando sobre as águas, num belo espetáculo da natureza.

Morro do Cristo


Reportando-nos a esse antigo carnaubal que ocupava talvez 90% das terras da hoje cidade de Ipueiras, criminosamente, sem qualquer critério preservativo, vários prefeitos na década de 30 ceifaram impiedosamente a quase totalidade dessas esbeltas árvores de porte tão elegante quanto festivo, no farfalhar dos leques e das palhas.

Ainda nos louvando em Hugo Catunda, presume-se que uma das moradas do temido "caudilho" sertanejo Manuel Martins Chaves (de quem descendia minha avó paterna Luiza Chaves de Almeida), dentro das terras das Ipueiras, ficaria no primeiro topo do "Morro dos Frios", que daria uma visão perfeita do quadro de sua propriedade no local, divisando todo horizonte.

No topo acima referido, a que chamavam "alto da bela vista", anos depois, num pequeno casebre, morou um ex-escravo de nome Vicente Balbino Arroz, avô paterno do velho José Arroz que morreu com 102 anos e dizia ser seu avô filho de "Maria Pereira", hoje Mombaça, tendo aqui chegado tangidos pelas secas. Contava aos coevos que a morada era mal-assombrada, mas nunca deu detalhes desses fatos.

Fácil imaginar-se que Manuel Martins Chaves poderia ter perfeitamente uma residência no perímetro já descrito e a outra, certamente a grande, a da "Fazenda Ipueiras" propriamente dita, pela sua importância e maior segurança, nas terras do "Engenho", compreendidas entre os lugares "Vidéo" e "Riacho da Cupira", imóvel herdado do seu genitor capitão-mor José de Araújo Chaves (Nertan Macedo, in "Floro Bartolomeu, o Caudilho dos Beatos e Cangaceiros", pg. 21, 2ª edição, 1986.). Manuel Martins Chaves permaneceu morando nesta casa até sua prisão em 1806.

Descreve-se, assim, sem outras pretensões, a terra, o chão, o barro, o húmus da florescente Ipueiras dos nossos dias, ficando o seu povo, que é o nosso e a sua gente que somos nós, para a rica História da posteridade. *PC*

(012)

quarta-feira, 13 de abril de 2005

"Seu Mundo Ricardino" - Por Walmir Rosa de Sousa
Passada a primeira infância, em que a moda, na época, eram grandes cachos de cabelos (talvez uma influência tardia da moda francesa imortalizada pelos Reis de França, de Luís XIII a XVI), fui levado por meu pai, Wencery, à Barbearia do Seu Mundo Ricardino, que ficava ali vizinho à casa do Seu Luís Malaquias, defronte à Padaria do Mestre Laurindo, para fazer um corte à moda Príncipe de Gales (corte militar, de influência britânica).

Seu Raimundo Ricardino, ou "Seu Mundo", como todos o conheciam, um homem alto, ereto, cabelos de corte militar, à máquina, vendo meu diminuto tamanho, colocou sobre a cadeira um banquinho de madeira para que eu alcançasse altura suficiente para dar acesso à tesoura e à maquina. Senti um estranho poder naquele homem; de um momento a outro, de um bebê me transformou num homem. A partir daí, passei a admirá-lo e a observá-lo.

Seu Raimundo Ricardino em ação (foto - acervo pessoal de Edson Morais)


Nas minhas andanças de menino de cidade do interior, fuçava, juntamente com os colegas (dos quais, em futuro, pretendo falar) todos os recantos da urbe (cidade grande tem que ser chamada assim - em latim) e vi que Seu Mundo também tinha outra habilidade: tocava tuba na Banda de Música da Paróquia, que animava todas as festividades religiosas da terra (quem não se lembra dos dobrados na calçada da igreja e dos curtos acordes depois de cada arremate nos leilões beneficentes na Festa da Padroeira?).

Fiquei freguês. Por morar perto, muitas madrugadas corria para o quartinho da Banda para, com outros meninos, acompanha-la até o patamar da Igreja onde, depois da missa, havia uma retreta (para os mais novos, concerto de uma banda de música em praça pública). E ele lá estava com sua tuba, juntamente com Seu Catunda, no bombardino; Tunga, no bumbo; Antônio Jardelino, no trombone, e outros de cujo nome não lembro (me desculpem) executando seus respectivos instrumentos.

Seu Mundo era o maior de todos e tocava o instrumento maior. Tinha tudo a ver com "mundo". E aquele grande homem não era só isso, não. Nas noites ipueirenses comandava o "espetáculo da luz". Era ele, e só ele, quem iluminava a cidade, por ser o encarregado pelo funcionamento e manutenção do "Motor da Luz" (era assim que toda a gente chamava), e todas as noites, com seu enorme e estranho poder, mandava todos dormir, ao "dar sinal" de que, em meia hora, iria desligar a luz.

Até hoje, no meu pensar, tenho plena convicção de que SEU MUNDO ERA O HOMEM DE MAIOR PODER EM IPUEIRAS, pois, homem de muitas habilidades, transformava crianças em homens, com um simples corte de cabelo, tinha o poder supremo de acordar a cidade com as alvoradas da Banda e, ao fim do dia, dava o toque de recolher, ao apagar a luz, mandando todos dormir. Como não tinha instrução suficiente para compreender que "mundo" era um apelido derivado de "Raimundo", seu nome, achava que "mundo" era por conta de seu poder. Quase "Dono do Mundo".

"Seu Mundo Ricardino", no lugar onde estiver, representado por seus familiares, merece receber, de toda a comunidade, a homenagem de figurar no rol das Personalidades Ipueirenses, pelos relevantes e inolvidáveis serviços prestados à nossa terra. *PC*

(011)

sábado, 9 de abril de 2005

Dribles Grosseiros - Por Marcondes Rosa de Sousa

''Subir os montes para compreender as planícies. Às planícies descer, para captar a natureza dos montes'' - eis o conselho de Maquiavel ao Príncipe. Aos montes e planícies, pois, em nossa educação!

Nos montes, ao virar o século, ela se vê ''capital social e humano''. E ''direito de todos, do nascer ao morrer''. Isso, da infantil à superior. Esta, grau inconcluso, por natureza... Na planície, ''universalização'' corrói-se como ''apressada massificação''. Daí, faculdades improvisadas, cursos em atropelo, sem ajuste ao ''mundo do trabalho'' e às necessidades: as sociais e as regionais. Para os míopes, um ''negócio'', em desafino com as antes ''casas onde se produz e se distribui o saber''. Nelas, professores tidos ''meros empregados ou palhaços até de alunos''. O diploma (e não o saber) como mercadoria posta à venda. Recém-graduados, a substituir, por preço vil, experientes e titulados docentes. Grosseiros dribles à legislação trabalhista: fantasiosas ''cooperativas'' e ''empresas prestadores de serviços'' a mascarar o ensino. Isso, em meio à discutível inclusão por cotas de negros e egressos da escola pública no seio acadêmico.

Na mesma planície, corporações econômicas já se dão conta de que a responsabilidade social pode lhes trazer, por ironia, vantagens em seu afã competitivo (www.ethos.org.br). Com tal intuito, normas aí estão (SA-8000). E é nesse tom que pressões sociais postulam ''ouvidoria'' para colher o vigilante olhar coletivo sobre a educação superior, como a dizer: é a sociedade (e não o aluno) o cliente maior da educação. Que, aos egressos da planície e hoje no Olimpo, lhes fique a lição! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

(010)

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Retreta do fim de tarde - Por Carlos Moreira / Ipueiras


A música é, na verdade, a expressão mais popular da arte e da cultura do povo, pois é através dela que vivemos e revivemos momentos marcantes de nossa vida. A Banda de Música Joaquim Catunda Sobrinho vem animando as praças da cidade, os bairros e outros locais onde o povo está. A apresentação acontece pelo menos 2 dias por semana, às terças e quintas-feiras, seguindo um rodízio de exibições, com a duração máxima de 90 minutos. O repertório é eclético e visa atender, nesse espaço de tempo, os mais variados gostos. Constitui-se momento de grande habilidade e sensibilidade de seu maestro, a quem cabe aprazível mister.

Segundo o Diretor de Arte, Cultura e Marketing da Secretaria de Educação de Ipueiras, Antonio Alves Neto, o principal objetivo é despertar, na população, o gosto pela boa música, que traz de volta a lembrança de momentos já idos e faz revivê-los com mais intensidade. A intenção do poder público é continuar levando a Banda de Música Joaquim Catunda Sobrinho para perto do povo e, assim, democratizar o acesso ao patrimônio cultural da cidade. Promover a retreta de fim de tarde significa revelar aos jovens a arte através da boa música e despertar nos mais velhos as memórias que o tempo não foi capaz de apagar. *PC*


Cronograma de realização do Projeto Retreta de Fim de Tarde:


07/04 - Quinta-feira, das 16h30 às 17h30

Calçadão do Açude da Cadeia

11/04 - Segunda-feira, das 16h30 às 17h30

Salão Comunitário Bairro Vila Jorge

14/04 - Quinta-feira, das 16h00 às 17h30

Colégio Estadual Otacílio Mota

19/04 - Terça-feira, das 16h00 às 17h30

E.E.F. Padre Angelim

26/04 - Quinta-feira, das 16h00 às 17h30

E.E.F. José Aloísio Aragão

(009)

domingo, 3 de abril de 2005

Citações em tom de tributo (IV) - Por Marcondes Rosa de Sousa
Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipueiras ("águas retiradas", em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a leitura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a decifragem do mundo. Leitura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, "leitura da oralidade" a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Carochinha, que me iam chegando das babás e empregadas domésticas e dos múltiplos contadores de história a povoar os sertões.

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal "caligrafia" (a buscar sinais gráficos, corretos e belos), em cadernos onde começávamos a "cobrir" as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas. Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Catunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros didáticos, um deles nos chamava a atenção: o "manuscrito", onde textos escritos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreensíveis "garranchos", nas últimas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na escola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mourão), na mesma cidade, tínhamos de decifrar. *PC*

Texto extraído de "A leitura emburrece?", divulgado no Grupo Ethos Paidéia.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

LUTO


Fica externada neste espaço a consternação pela morte do papa João Paulo II, cujo pontificado iniciou-se em 16 de outubro de 1978 e encerrou-se ontem, 2 de abril, com sua morte, às 16h37min, horário de Brasília (21h37min no Vaticano). Karol Wojtyla, 84 anos, nasceu na Polônia, em 1920, e foi o primeiro papa eslavo nos quase 2.000 anos de história da Igreja Católica.

Equipe Primeira Coluna

(008)

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Está na hora de dormir? - Por Carlos Moreira / Ipueiras

Quem já não teve pelo menos uma vez aquela sensação de estar muito cansado, mas, após deitar na cama, não conseguiu dormir?

Um dos motivos apontados como maior causa de insônia é o nível de estresse. Apesar de reparador, o sono não é recuperável. Uma boa noite de sono, além de propiciar o natural descanso do estado de vigília, pode influenciar as pessoas em vários aspectos. Fisicamente, diminui a pressão arterial, previne o diabetes, o câncer e regulariza diversas funções cerebrais e cardíacas. Pode ainda melhorar o humor, a concentração, a memória e a criatividade. Em contrapartida, uma noite mal dormida pode causar má digestão, falta de apetite, enfraquecimento do sistema imunológico, comprometimento da função cardíaca, depressão e queda na produtividade profissional.

Em entrevista concedida ao Primeira Coluna, o psicólogo Denis Coelho acredita que a falta de sono não é o foco, pois trata-se de conseqüência. Deve-se focar a causa e não o sintoma. Coelho acha que há um predomínio maior de mulheres com estresse no município de Ipueiras. Estresse é um mal vinculado a uma determinada realidade, à realidade de cada indivíduo, e não a uma raiz biológica ou orgânica. Tem de ser avaliado no contexto em que a pessoa vive. O que existe na verdade é um alto índice de transtorno de ansiedade, de depressão, de histeria.

CAUSA E EFEITO

Segundo Denis Coelho, estresse é um um mal moderno. Não há registros históricos de que tenha sido identificado em qualquer tempo ou cultura, o que não descarta totalmente a possibilidade de ter existido pontualmente em outros momentos da humanidade. No entanto, está claro que é algo intrínseco à vida moderna e sua ausência de significados, característica marcante do mundo contemporâneo. E o estresse pode se tornar crônico.

Ele afirma ainda que aumentar o número de horas de sono não significa dormir melhor. Maior quantidade de sono não significa o equivalente em qualidade. Depende muito de cada um. Há pessoas que são mais suscetíveis à tensão e ao esgotamento. Existem outras mais resistentes e que se adaptam melhor a situações difíceis. É preciso tomar algumas medidas: a prática de esportes e as técnicas de relaxamento são dois exemplos.

O Dr. Denis Coelho alerta: o papel do psicólogo é facilitar a busca de soluções. O empenho do paciente é fundamental para que isso se concretize. A pessoa tem de ser autônoma. O psicólogo da Secretaria de Saúde do município de Ipueiras relata também que primitivamente o medo vem do nada e é alimentado pela imaginação - "O ócio é a mãe de todos os vícios". Ele acredita que um dia a comunidade científica vai compreender que uma das grandes causas das doenças, sobretudo o câncer, além da relação com a genética, é a interação da estrutura biológica com o ambiente. E é onde cresce a importância da Psicologia. A Organização Mundial de Saúde afirma: saúde é bem-estar, e não simplesmente a ausência de doença. Tem que haver o bem-estar físico, psíquico, social e espiritual. Ao falar da sociedade, simplifica-a como dualista, não é monística e imaterialista desde a época de Galileu, quando nasceu a ciência e pereceu a intuição. *PC*

(007)