terça-feira, 29 de março de 2005

O épico de uma época: <i>Quase!</i> - Por Marcondes Rosa Sousa

Quase é advérbio por trás do qual se escondem o rascunho, o inconcluso e o inatingido. Quase é o título de obra de 518 páginas do escritor-jornalista Frota Neto, lançada, dias atrás, em calorosa noite no Náutico, em mais de 4 horas de autógrafos, abraços e reminiscências de todos os lados.

Autobiografia, crônica sentimental, história ou romance? Quase é quase cada um desses gêneros. É autobiografia onde o autor se transpõe do texto para o entretexto. Romance em primeira pessoa, em que o narrador é câmera subjetiva a extrair, de ambiências, fatos e personagens, o caleidoscópio de nosso imaginário. Filme onde incontáveis figurantes são feitos protagonistas, num romper da dualidade bandidos/mocinhos. Nele, Frota Neto é repórter a registrar fatos de sua convivência, entre os anos 50 e 70.

Na seleção do não-perecível, assistiu-lhe o feeling do cronista da história. E, ao mapear ambientes, atitudes e almas - captados por câmera em close up - fez-se cineasta sensível na seqüência dos instantâneos em contextos significativos mais amplos e verticais: do carneiro do Miraugusto e os doidos (?) de Ipueiras às cenas nas prisões, no jornalismo e na história do Ceará, do Brasil e do Mundo. O menino que, nas Ipueiras, brincava de repórter, afeito à história e às estórias, revela-se de corpo inteiro, na linguagem solta e aprazível, impregnada do jeito de nossa gente.

Quase, assim, não é o nostálgico retorno a um congelado passado. É, ao invés, o ontem revisitado, sob o agudo olhar do agora, onde atores e cenas, em flashback, se re-simbolizam em seu papel. Quase são dramas com marcas, sem traumas porém. Não o tributo cobrado por um retornado, após seu êxito lá fora. Frota é um dos que se foram mas que, aqui, deixou-se ficar. Que viu o mundo Ipueiras e, de sua aldeia, fez uma sinédoque do mundo. Isso, porque continuou sempre o Antônio do seu Idálio, a nos tratar pelo apelido de infância. Seu Idálio, o pai, que, no cotidiano de sua farmácia, é personagem-tema a nos sugerir um romanço...

Para Frota Neto, Quase pode ser o desculpar-se pelo inconcluso. No caso, porém, é advérbio que se tornou substantivo próprio e maior. E, na leitura de muitos dos personagens-leitores, o épico de uma época. Por que não? A arte, afinal, faz-se da sugestão e do inconcluso: atingindo sua plenitude, no quase! *PC*

Publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza, por ocasião do lançamento do livro de Frota Neto.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará.

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sábado, 26 de março de 2005

A voz do sertão! - Por Carlos Moreira / Ipueiras
O radialista Antonio Ferreira de Abreu, 32 anos - "O homem do Chapéu de Couro" -, vem se destacando como o maior fenômeno humorístico de Ipueiras, conhecido também pelo pseudônimo "Edílson Sales". A audiência é garantida em seus programas "Café do Sertão" e "Baião de Dois", ambos transmitidos pela Rádio Macambira de Ipueiras, no Ceará, onde registra a participação do público através de cartas e telefonemas (o número da emissora é 88 - 36851368).


Edílson Sales (foto acima) foi "descoberto" pelo presidente do Guarani Futebol Clube da Estação. Este trabalhava na rádio Roquinha em 1992, que funcionava através de um sistema de alto-falantes movido a baterias de caminhão, e posteriormente ingressaria na já extinta rádio Guarani, no bairro da Estação, outro sistema de alto-falantes. Quanto ao humorista, em 1997 teve uma rápida passagem na FM Ipueiras, apresentando o programa "Alegria Popular". Poeta desde os 14 anos, Edílson Sales tem registrados aproximadamente 50 poesias e mais de 300 versos. A sua primeira poesia intitula-se "O Brasil e a Pobreza", na qual faz uma analogia baseada no sofrimento do povo mais carente do Brasil e do Nordeste. Sales incorporou vários personagens para o rádio, tornando-se atração certa nas manhãs e nos finais de tarde na Rádio Macambira. "Pichilinga", "João da roça", "Vitalina", "Mané Moco", "Severino" e "Juquinha" são alguns deles.

"... ele é a voz do homem do campo", relata o Sr. Manoel Messias, morador da localidade de Floresta, distante 6 quilômetros da sede do município de Ipueiras. Nos seus programas recebe ligações de conterrâneos que encontram-se no Sul e Sudeste do país, dando o seu alô! para familiares e amigos. Sales ressalta ainda a importância do rádio no cotidiano das pessoas, encurtando distâncias. Esclarece também que a comunicação que faz não é abjeto. Fala a linguagem do sertanejo. *PC*

(005 - Publicado originalmente em 24/03/05 - Fase Blogger Brasil)

Iracema e Luzia-Homem: arquétipos femininos da literatura cearense - Por Bérgson Frota

José de Alencar e Domingos Olímpio tiveram cada qual a sua época um papel decisivo na literatura cearense e brasileira. O primeiro inspirou sua obra em um tempo em que a identidade do Brasil era formada enquanto que o outro optou narrar a bravura já nascente da mulher cearense no período causticante da seca.

Iracema e Luzia-Homem. Duas abordagens diferentes de arquétipos femininos mas tendo em comum a característica mais definidora de heroína cearense, a força.

Enquanto Iracema ama desapegadamente o europeu português, e chora sua partida percorrendo as margens da lagoa de Messejana:

"Tão rápido partia de manhã, como lenta voltava à tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham visto alegre nas águas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na margem do rio, chamavam aquele sítio de Mecejana, que significa a abandonada".

A brava Luzia-Homem recorda triste já distante sua terra:

"Ao espetáculo do alvorecer sem alegria, o campo desolado, sem cântico de pássaros e rumores harmoniosos do trabalho venturoso e fecundante, ela revia sua infância na fazenda Ipueiras: a campina verdejante umedecida de orvalho congregando no côncavo das folhas em gotas trêmulas".

A índia tabajara desconhece a seca, sua batalha embora exterior se projeta do interior em busca do amor. A retirante de Domingos Olímpio procura sobreviver e nesta luta aprende a bravura dos homens, não perdendo sua feminilidade mas tornando-se mais forte do que a cruel realidade ditada pelas secas já vividas.

Quando o primeiro cearense nasce o guerreiro está distante, mas Iracema alimenta Moacir (filho do sofrimento) até que as tetas neguem o leite e passem a brotar sangue. Luzia-Homem entrega seus sonhos ao futuro incerto de retirante, sempre encontrando nos povoados em que se abriga a sensação de desamparo.

A serra da Ibiapaba está nos dois livros presentes, em Iracema vem da serra a água fresca que lhe banha o corpo e esverdeia toda mata conhecida pela índia. É na citação da serra no início do capítulo segundo, que o autor nos apresenta sua personagem:

"Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira".

Em Luzia-Homem ela é vista como um Eldorado distante, sempre a marcar as noites com relâmpagos que prenunciam de acordo com o tempo o período chuvoso ou a escassez vindoura:

"Olhares ansiosos procuravam, em vão, o fuzilar de relâmpagos longínquos a pestanejarem no rumo do Piauí, desvelando o perfil negro da Ibiapaba. Nada; nem o mais ligeiro prenúncio das chuvas de caju".

José de Alencar de forma sutil descreve com esmero a simbiose da nativa ao ambiente:

"Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-se o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto".

Domingos Olímpio narra em Luzia-Homem uma passagem curiosa e nativa:

"...Veja só. Ninguém está contente com a sua sorte... Eu tenho usado tudo quanto me ensinam; óleo de coco, enxúndia de galinha, uma porção de porcarias... Cheguei até a botar nos meus, remédios de botica. Foi mesmo que nada... Sempre ficaram nestes rabichos que nem me chega às cadeiras...

- Enfim, cada um como Deus o fez...

- Porque não os ensaboas com raspa de juá? Todas as moças, na redondeza das Ipueiras, tem cabelos lindos, que crescem depressa - dizem - por causa da água de lá, que é virtuosa, de tal raspa..."

No primeiro trecho a índia comunga com a natureza em harmonia, recebendo dela o que de graça está lhe dando, no segundo já há uma influência do naturalismo fugindo do lirismo em que se desenvolve o romance alencarino, a natureza dá mas tem que ser colhida.

O luar é uma presença constante e quase ritual nas duas obras:

"A Lua das flores vai nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pajé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos de Ipu, e os olhos de Iracema, mas sua alma, não".

Em Luzia-Homem:

"- Que bonito luar, Luzia. Dá vontade à gente de passar a noite em claro. Como está bem visível. São Jorge e o cavalo empinado. Diziam-me um tapuio velho da serra Grande que a lua protege a quem quer bem. Quando uma tapuia gentia tinha saudades do marido ausente, olhava para ela, e lá lhe aparecia o retrato da criatura querida, ou nela casavam, conduzidas pelos olhares, as almas do par, separado por léguas de distância".

Existe no entanto a harmonia de dois arquétipos feminos entre os romances apresentados e mesmo o primeiro sendo um conto romântico e o segundo uma narrativa de caráter naturalista, a própria feminilidade e a sua força são um elo inquestionável entre as duas protagonistas.

Enquanto o romantismo permeia a história de Iracema, levando-nos a caminhar por disputas entre o índio e o branco conquistador. A realidade mais cruenta do sertanejo nos é imposta por Domingos Olímpio na saga da sua heroína que de forma rude se impõe perante o clima hostil da seca e sua humilhante condição de retirante maltrapilha.

Iracema e Luzia-Homem amam, sofrem e morrem de forma dramática mas corajosa.

José de Alencar escreveu: "Pousando a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu, como a jetica se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha consumido seu belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá".

Domingos Olímpio assim narra a morte de Luzia-Homem: "Luzia conchegou ao peito as vestes dilaceradas, e com a destra, tentou lhe garrotear o pescoço; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada ao soldado que, em convulsão horrenda, delirante, a ultrajava com uma voracidade comburulente de beijos. Súbito, ela lhe cravou as unhas no rosto para afastá-lo e evitar o contato afrontoso.

Dois gritos medonhos restrugiram na grota. Crapiúna, louco de dor, embebera-lhe no peito a faca, e caía com o rosto mutilado, deforme, encharcado de sangue.

- Mãezinha! ... - balbuciou Luzia, abrindo os braços e caindo, de costas, sobre as lajes".

Iracema foi publicado em 1865. Na época do lançamento do livro, Ipu já era um próspero município, mas ainda guardando como precioso tesouro a Bica feito um véu de noiva que a índia tabajara se banhava para tirar o suor salgado das praias do litoral quando no sítio chegava. Domingos Olímpio ao colocar como lugar de forjamento da índole forte e batalhadora de Luzia Homem a fazenda Ipueiras, lançou mão da mesma estratégia de seu conterrâneo, regressou a um período mais próximo da história cearense, fato este ao se constatar que no ano de lançamento de Luzia Homem (1903), a fazenda Ipueiras já não mais existia, havia se tornado município em 1883, completando na época vinte anos de municipalidade, ambos os autores remontaram as origens primevas dos sítios em que desejavam narrar suas tramas. .

Iracema e Luzia-Homem são os dois arquétipos femininos mais fortes presentes na literatura cearense, são protagonistas de tramas cativantes e dolorosas e por isso merecedoras de respeito e estudo a todos que amam a boa literatura. *PC*

(004 - Publicado originalmente em 20/03/05 - Fase Blogger Brasil)

Fama... ?! - Por Carlos Moreira / Ipueiras

Todos em busca do sucesso! Esse é o lema de quem participa do "Big Brother Brasil". Cada participante atua, contracena, seduz e principalmente joga. Aliás, motivo maior que os leva a expor suas vidas. O programa revela hábitos, defeitos, virtudes e, por que não falar, amor. A interação dos enamorados é patente diante das câmaras, não havendo distinção de cor, religião e opção sexual. Participantes de programas como este têm na maioria das vezes uma participação medíocre, expondo-se ao ridículo, tirando a roupa, coisa que a mulherada só sabe fazer, enquanto que os homens desfrutam de um machismo presente, ociosos, contando e esbanjando vantagens. Os diálogos são vazios e, em termos de conteúdo, contrastam uma estrutura existente em programas que enfatizam política, educação, religião, entretenimento através da música, teatro etc. Porém, o "Big Brother Brasil" é só mais um dos enlatados que a TV brasileira joga para o telespectador, invadindo lares, lanchonetes, restaurantes, hotéis... sem o mínimo respeito. O reality show, através da sua forma, tem aspectos positivos: cria-se um cenário jamais imaginado em outros anos através da TV; verifica-se que há pessoas propensas a participar ativamente do programa - mesmo que seja do outro lado da telinha. Com a inovação tecnológica a TV passou a ser um canal curto, podendo o telespectador mudar o desfecho de uma novela e até mesmo contribuir para a elucidação de casos nos programas policiais.

Até mais! *PC*

(003 - Publicado originalmente em 12/03/05 - Fase Blogger Brasil)

Feira de São Cristóvão - Por Rodrigo Nonato / Rio de Janeiro

Feirantes de São Cristóvão, no Rio, têm programa de alfabetização para barraqueiros. Durante oito meses, desde o dia 7 de março, um grupo de comerciantes e trabalhadores da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, está freqüentando uma sala de aula. Pelo menos 18 deles já estão participando da primeira turma do projeto "Educação na Feira", voltado para extinguir o analfabetismo entre os feirantes do Pavilhão de São Cristóvão. O projeto faz parte do programa "Por um Brasil Alfabetizado", do governo federal, e será realizado pelo Departamento Cultural da feira, em parceria com Sebrae/RJ e Secretaria de Estado de Educação.

Os professores são feirantes que se ofereceram como voluntários. Elisabeth Bravim é a voluntária responsável pela primeira turma. "Os alunos estão animados e eu também prometi, para incentivar, que no final do curso quem estiver sabendo ler e escrever vai participar de uma peça de teatro. Então eles estão super empolgados. Tem muita gente querendo entrar na turma. Na feira tem adolescente que não sabe ler nem escrever. Eles vieram do Nordeste, se instalaram lá e não sabem nada", conta Elisabeth, que foi capacitada pela Secretaria de Estado de Educação para atuar como alfabetizadora.

A idéia surgiu da constatação, durante as capacitações que o Sebrae/RJ realizou com os feirantes, de que algumas pessoas não acompanhavam as explicações por serem analfabetas. Em conversa com os integrantes da Sociedade de Amigos da Feira de São Cristóvão, foi decidido organizar um curso para os comerciantes. "Estamos muito felizes com o curso. Isso vai facilitar em muito nosso trabalho e nossa vida", contou Francisco Raimundo, de 55 anos.

Atualmente, existem cerca de 750 feirantes, que empregam de quatro a 15 ajudantes, de acordo com o tamanho de cada barraca. Com a recente reestruturação da feira, a freqüência semanal de visitantes pulou de 30 mil para 60 mil pessoas, em média. *PC*

(002 - Publicado originalmente em 11/03/05 - Fase Blogger Brasil)

Rádio Vale do Jatobá: a pioneira! - Por Carlos Moreira / Ipueiras

Para quem pensa que a Rádio Macambira foi a primeira emissora de Rádio de Ipueiras, lembramos que no ínicio dos anos 60 os irmãos José Arimatéia Catunda e Luiz Malaquias Filho (professor "Lutim") adquiriram um cristal e montaram um pequeno transmissor que possibilitou as transmissões da primeira estação radiofônica da cidade, ouvida num raio de 30 quilômetros (cobria toda a região da serra da matriz). A estação foi batizada com o nome de "Vale do Jatobá", uma homenagem ao rio que banha a sede do município e é considerado o mais importante da bacia hidrográfica do território ipueirense.

A despeito de sua curta existência, a Rádio "Vale do Jatobá" serviu para marcar uma época de que muitos sentem saudades. Por seus microfones passaram - além dos irmãos fundadores - o hoje médico Carlos Matos Aragão, o tenente da Marinha Mercante do Brasil, Zacarias Neto, Fransisco de Assis Lima (o "Furi"), dentre outros. Com o advento da revolução de 1964, o Governo Federal determinou uma varredura nas frequências ilegalmente instaladas, perdendo Ipueiras a sua pequena estação. Com o fechamento da "Vale do Jatobá", José Arimatéia Catunda deu prosseguimento ao trabalho, através de um sistema de alto-falantes, até hoje em funcionamento.

Este é o primeiro trabalho de muitos que ainda virão. Primeira Coluna contará em breve com outros colaboradores. *PC*

(001 - Publicado originalmente em 9/03/05 - Fase Blogger Brasil)