domingo, 2 de outubro de 2005

O verbo mentir - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


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Em meio à crise política, invade-nos produtivo clima apocalíptico: de (des)construção, mas de (re)construção; de "fossa", mas de esperança. Ética, ela nos leva às raízes de atropelada "convivência social", em nossa história. E, aí, a descoberta de um estranho "pacto social" assentado não sobre a verdade, mas na enganosidade e na mentira. Entre nós, política é sinônimo de jogo-de-cintura, "lei do Gérson" (levar vantagem em tudo), vias para o tráfego de influências, corrupção a rotular de "privado" a "coisa pública".

Em nossa cultura, a mentira não está entre os "pecados capitais". Aqui, não se jura, sobre a bíblia, dizer a verdade. O verbo "mentir" é direito assegurado por habeas corpus dos tribunais... E os resultados deitam pegadas em nossa história política: golpes de estado, suicídios, renúncias, impeachments. A corrupção nos entranha a vida social e política. Hoje, ela se desnuda nos meios de comunicação, nas CPIs, em nosso humorismo e nas novelas. Nos momentos agudos de nossa história, seus crimes se abatem pelo sacrifício de bodes-expiatórios menores (os "pcfarias" e "delúbios"), no lugar de pecadores mais graúdos.

Na Praça dos Três Poderes ("podres poderes", diria Caetano Veloso), tece-se, como na história infantil, uma "nova roupa do rei". A idéia é que interesses maiores se resguardem nos planaltos. E que os sonhos de nossas alvoradas comuns não se frustrem. Por isso, o "costurar" a virar "blindar"...

Mesmo assim, os novos fios da "blindagem" talvez não resistam. A reforma terá que ser mais profunda. É passar a limpo os borrões de nossos cadernos sociopolíticos. Do contrário, a "porção criança" da alma nacional, como no conhecido conto infantil, não se conterá. E, para a vergonha de todos, poderá gritar, a todos os pulmões: "O rei está nu!" *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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