sábado, 18 de junho de 2005

Blecaute - Por José Luis Lira / Sobral (CE)


A batida do relógio bicentenário denunciava que novo dia despontava: zero hora! O que houve? Um silêncio horripilante se fez...

O som do Bar "Guaracy" parou e, junto com ele, o restante da cidade também. Decido acender a luz e vi que faltava energia.

Pensei: deve chegar logo. Tirei o telefone do gancho e ele estava mudo. Comecei a me assustar e decidi sair do quarto.

Bato-me na cadeira de balanço, mas, prossigo...

Constato que eu estava sozinho dentro de casa. Não havia mais ninguém, e lá fora caía o maior temporal. Contudo, não existiam motivos para medo. Tudo deveria ser conseqüência das fortes chuvas caídas naquela serrania, imaginava eu...

Continuei a andar dentro de casa, e a ansiedade, aos poucos, começava a tomar conta de mim... O que terá acontecido? Pensava incessantemente, enquanto procurava vela e fósforo.

Já com a vela acesa, desço a escada e vou até o porão.

Com certeza, lá estaria mais calmo, e, ontem, Joanita fez fachina.

Deve estar tudo limpo. Ligarei o gerador e o resto da noite será mais tranqüilo; no entanto, a porta estava fechada, e eu fiquei desapontado.

A angústia aumentou. Decidi procurar socorro. Mas, como? Não tem telefone, energia, nada... até água na torneira falta.

Olho para o velho relógio de parede e mais intrigado fico. O relógio tinha parado em zero hora. E agora? O que foi? Algo muito sério deve ter acontecido. E essa chuva que não pára!

Ainda assim, me visto e saio rumo à garagem. Ao tentar ligar o carro, sem saber o que faltava acontecer, este não funcionou. Vi o celular, que ali estava, e, quem sabe, pelo menos ele funcionasse? Fechando o cerco, leio no visor a mensagem: "sem serviço".

Ao som dos trovões e relâmpagos, lembrei-me do Pastor que gritava na praça: "O juízo final está próximo! Se preparem..." e eu, qual aqueles que zombavam de Noé, enquanto este construía a Arca, fiz ouvido de mercador.

Outra opção surgia: será que foi blecaute? A redenção, o fim dos tempos? Será que as águas da montanha irão invadir as cidades? A destruição anunciada deve ter chegado.

Sem conseguir pensar em mais nada, acordei achando que acabara de ter o maior pesadelo de minha vida...

Confuso, vi que tudo estava claro, e a flores do jardim perfumavam o amanhecer daquele primeiro de abril. *PC*


Praça Guaracy - Guaraciaba do Norte (CE)


Extraído do livro AJEB letras - Associação de Jornalistas e Escritores do Brasil

José Luis Lira é sócio colaborador da AJEB-CE, escritor, advogado, articulista e historiador.

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