sábado, 28 de maio de 2005

Mãe - Por Paulo Felipe / Rio de Janeiro

Há 75 anos atrás um pequenino ser que já havia se formado por completo veio ao mundo, e já trazia consigo o silêncio dos grandes sábios.

Minha avó contava que ela ao nascer ficou por algumas horas totalmente calada, em silêncio, talvez o sobrenatural já estivesse preparando-a para a grande jornada da vida que iria viver.

Menina de origem pobre, mas nobre, responsável, segundo vó chiquinha meu avô que com muito orgulho trago o nome dele, Paulo, ao chegar em casa entregava-lhe muitas vezes as suas economias, pois já era claro aos 14 anos a sua responsabilidade, trabalhar era a sua diversão.

E uma linda mulher já começava desabrochar, e logo um rapaz de família dita "rica e preconceituosa" se apaixonou perdidamente por ela, e mesmo sem o consentimento da família dele, casaram-se. Foi uma festa simples, mas regada de muito amor e certeza de que ele era o homem da sua vida, o primeiro e o único e ele também já sabia que aquela menina moça de apenas 15 anos seria a grande mulher que ele teria sempre ao lado dele e juntos iriam construir uma grande família.

Na primeira semana de casada foi recebida carinhosamente pela sua sogra que aos poucos percebeu a mulher maravilhosa que o filho havia casado.

Foi mãe aos 16 (dezesseis) anos, de uma linda menina, que se tornou uma grande mulher e seu braço direito, alguém que ajudou a criar a grande família que construía, mas quis a vida de forma cruel leva-lá, para seu total desespero...

Sempre ouvi-a contar a perda da sua filha Necy de forma desesperadora, aos prantos relatava, como ela era e como partiu, não a conheci, mas com certeza foi uma filha maravilhosa que Deus lhe deu e um dia levou de volta, não importa como...

Ela superou esta grande perda, até porque tinha outra filha ainda bebê, que cresceu e fisicamente era quase um clone da que partiu, como se parecia com sua Necy, essa eu conheci, Ah! Como conheci! Inteligente, audaciosa, corajosa, mas, acabou sendo levada pelas agruras da vida e contraindo um mal sem cura, e também partiu deixando um imenso vazio entre nós...

Com certeza nestes setenta e cinco anos de vida perdeu alguns filhos, recém-nascidos, crianças e adultos ... nasceu para ser mãe...

Mas a perda maior foi ver aquele que foi o único homem da sua vida partir tão de repente...

Se abateu muito, mas não deixou-se derrotar...

Fechou-se de luto, vestiu-se de preto durante um ano seguindo a tradição, foi para roça, quis ficar perto fisicamente do seu patrimônio, não queria perder tudo que havia construído de maneira digna e honesta com seu companheiro e sem medo e vergonha voltou às origens, nunca gostou da política e nem de ver papai infiltrado nela, até porque só contribuiu para a morte dele mais rápido, o título de 3ª dama da cidade lhe passou despercebido, pois é uma mulher simples, humilde por natureza e não precisa e nunca precisou da política e de títulos para viver.

Uma heroína, minha rainha, é assim que descrevo minha mãe...

Diziam que papai ia espalhando, mas mamãe ia atrás sempre juntando...


Hoje aos 75 anos (foto acima), lúcida, com o mesmo patrimônio deixado pelo seu marido, um pouco abandonado, também é pedir demais que ela tenha a mesma garra, as pernas já não são as mesmas, o cansaço já lhe bate na porta...

Sozinha por opção e pelo destino da vida, talvez viva aquele ditado popular que diz: os filhos criamos para o mundo.

Eu que o diga, foi aqui fora que percebi o quanto ela é e foi importante para mim, aprendi muito com a escola da vida, mas foi lembrando sempre dos pequenos exemplos e gestos dela que fui crescendo como gente que nasce, cresce, sofre e ama...

Volto ao passado e lembro tanto de como éramos felizes, de como fomos felizes e não sabíamos, sinto falta do seu baião de dois, do cheiro da manteiga que ela fazia de madrugada, de sempre querer dormir no seu quarto, dos banhos que me dava no açude quando ia lavar roupa, hoje posso lembrar de tudo isso e sentir a felicidade de ter uma mãe como ela:

Com um coração como poucos.
Um coração idealista.
Um coração à moda antiga.
Um coração que na realidade está meio calejado, muito machucado.
Um coração meio endurecido, mas que mantém sempre viva a esperança na vida, sendo simples e natural.
Um coração que sai do sério, briga, se expõe com palavras e gestos para defender seus filhos.

Estamos distantes fisicamente mas sempre juntos nas saudades, tristezas e alegrias, aguardo ansioso e cheio de amor e carinho o dia de vê-la aqui nesta selva de pedra ou mesmo na distante Ipueiras.

Conto os minutos para lhe abraçar, beijar, levá-la no médico, passearmos...

FELIZ ANIVERSÁRIO MÃEZINHA!!

UMA DAS COISAS QUE FAZEM A VIDA AINDA MAIS BELA É SABER QUE A SENHORA EXISTE...

TE AMO MUITO...

Seu filho

Paulo Felipe - 25/05/2005


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