domingo, 22 de maio de 2005

A descoberta de "O Sertão" - Por Bérgson Frota / Fortaleza


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Há exatamente oitenta e nove anos, era impresso em Ipueiras pelo historiador Hugo Catunda Fontenele, futuro imortal da Academia Cearense de Letras, o pequeno jornal "O Sertão".

No editorial, o redator-chefe que se autodenominava "director" apresentava num longo artigo as pretensões do periódico: "Filho dos viridentes campos dominados pela altaneira Ibiapaba, surge hoje humildemente na arena jornalística mais este obreiro; "O Sertão" que vem colocar-se inteinerato e vigoroso ao lado da verdade e da justiça, defendendo os sagrados direitos da sociedade.

Vem luctar como todo jornal que, defende um ideal sério.
"

Na época Hugo Catunda tinha então dezessete anos incompletos, mas mesmo adolescente, já mostrava seu grande talento para o pioneirismo e a notável capacidade intelectual que lhe acompanhou até a morte, ocorrida em 7 de março de 1980, em Ipueiras.

Impresso durante a I Guerra Mundial, há um artigo intitulado "A Guerra", no qual o autor, utilizando dados de Francisco Lins, escritor fluminense, mostrava os altos custos humanos e financeiros do terrível conflito. "É a triste verdade, e no entanto vivemos quase indifferentes a tantos horrores que de um certo modo nos afectam."

Comentário tão atual nos dias hodiernos.

Outros assuntos de "O Sertão" abordavam a vida social da cidade e notícias curtas, mas abrangentes, do resto do País.

Algumas curiosas: "O ministro da fazenda autorizou o vapor "Íris" a conduzir 1.500 emigrantes de Fortaleza para Belém". Mostrando o grande fluxo de cearenses no período para aquela região.

Noticiou a convenção do Partido Republicano Democrata Cearense, realizada em 24 de fevereiro, não esquecendo de cunhar o nome do representante do município nesta reunião, o farmacêutico Turíbio Mota.

Sobre outros estados "O Sertão" se mostrou pioneiro ao noticiar a abertura da falência da sociedade mútua "A Americana" em Recife.

A divisão na política do Piauí também foi destaque, quando o governador Dr. Miguel Rosa apresentava para lhe suceder o desembargador Antônio Costa enquanto parte da representação federal do estado pleiteava a candidatura do Dr. Eurípedes de Aguiar.

A criação de um novo bispado em Caratinga - Minas Gerais, bem como uma ajuda financeira posta à disposição do governo da Paraíba pelo Rio Grande do Sul, com a finalidade de ajudar flagelados também foi noticiada.

Acusou de forma entusiástica a criação do jornal "Vida de Minas" na terra mineira. Também pequenas notícias como o valor do preço da castanha na Amazônia e o fraco carnaval que se deu em Fortaleza no ano citado.

Na última folha, os anúncios dominavam. As lojas locais como A Libertadora e a Loja do Povo tinham destaque. Entre os menores, um interessante: "Raul Catunda - Prepara com a máxima pontualidade retratos a crayon em ponto grande, (em letras menores), Preços Módicos."

O jornal anunciava que era impresso três vezes por mês, custando a assinatura por trimestre 3000. Cartas ao mesmo deveriam ser endereçadas ao "director".


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Estes dados foram retirados da primeira edição de "O Sertão", jornal de que não se sabe se teve outras edições. Encontrado nas ruínas da casa do historiador há dois anos, pouco se descobriu da existência de outros números. O tempo que separa as gerações encarregou-se de silenciar esta pergunta, porém deixou claro para os ipueirenses que com merecimento Hugo Catunda ocupou a cadeira nº 36 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é o Senador Pompeu.

Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro "A Academia de 1894" que o enalteceu dizendo ser: seu estilo de aristocrático aticismo, e outras vezes de sabor euclidiano.

Carlos D´Alge no livro "O Exílio Imaginário" relatou: Nertan Macedo encontrou um brilhante colaborador, e dessa amizade resultou a trilogia: O Clã dos Inhamuns, O Clã de Santa Quitéria e O Bacamarte dos Mourões.

Citações de louvor ao notável historiador foram feitas por Raimundo de Menezes no seu "Dicionário Literário Brasileiro" e no "Dicionário de Literatura Cearense".

A descoberta de "O Sertão" foi então para os ipueirenses e para a comunidade literária cearense um presente, talvez possa ser considerado a primeira obra impressa de um homem que em vida foi conhecido como escritor de punho seguro e detentor de uma linguagem concisa e sazonada pela técnica. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

O autor agradece à Academia Cearense de Letras pela pesquisa biográfica e bibliográfica realizada.

As imagens de "O Sertão" foram cedidas por Bérgson Frota e suas ampliações estão hospedadas no servidor do site Ipueiras.com

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