quinta-feira, 19 de maio de 2005

As Mil e Uma Noites e a Telenovela Brasileira - Por Bérgson Frota / Fortaleza

Conta a lenda que um rei árabe da dinastia dos sassânidas, ao ser traído por sua esposa, depois de condená-la à morte decidiu que jamais seria traído novamente, para isso todos os dias tinha então uma nova esposa e ao nascer do sol mandava matá-la.

Sarasate, uma linda e culta virgem, ao ser escolhida para esposa, sabendo de seu destino resolveu prender o rei com um conto, mas não um conto qualquer, uma história que distraísse e aguçasse a curiosidade do monarca, estendendo-a até o dia seguinte, onde então continuaria. Assim garantiria que sua vida fosse prolongada, porque cada história além de ser interessante finalizava entrando em outra que já no princípio despertava a curiosidade de quem a ouvisse. E assim se desenrolam as histórias do livro As Mil e Uma Noites.

O texto desta obra, que se supõe tenha sido escrita em Bagdá no século VII, guarda grande semelhança com o gênero folhetinesco que apesar de não ser originariamente brasileiro se desenvolveu com singular característica e sucesso no Brasil, a nossa tão aclamada Telenovela.

Como no famoso livro árabe a telenovela brasileira tem seus vilões e mocinhos, suas "bruxas" e indefesas "vítimas", seus enredos que muitas vezes pendem para o fantástico, personagens e histórias que mesmo do absurdo de suas tramas são sucesso, é o que se pode dizer de Saramandaia, onde uma mulher de tão gorda explodia, um sacristão com asas feitas de penas de pássaros voava e finalmente um homem que das narinas brotavam formigas. Folhetim de audiência absoluta.

Os fantasiosos contos de Sarasate narram a história de Sinbad, um marujo audacioso que nas suas aventuras depara-se com os mais fantásticos monstros. Ali-Babá e os 40 Ladrões que com a frase "abre-te sésamo" entrava em seu esconderijo onde preciosas jóias, frutos de centenas de roubos, eram guardadas e Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, estes são só alguns exemplos das várias histórias encontradas no livro As Mil e Uma Noites.

A telenovela brasileira como nos contos do livro árabe guarda o suspense, o que prende o espectador, aquela espera da surpresa que só o dia de amanhã pode trazer. Tal fascínio que levou o rei sassânida a poupar Sarasate até que após 1.200 noites a tomasse como esposa definitivamente é o mesmo que séculos depois faz o sucesso de nossas telenovelas. Não o simples fascínio de saber o que vai acontecer, mas a curiosidade de como o "acontecer" vai se dar.

Estudiosos questionam um fenômeno que só no Brasil ocorre em se tratando de telenovelas. Apesar de México, Venezuela e até Portugal produzirem e também consumirem o folhetim brasileiro, no Brasil os jornais, precisamente de domingo, antecipam os principais lances das tramas em exibição, tal fato porém não faz com que telespectadores deixem de assistir os capítulos. A antecipação que rádios e jornais diariamente fazem dos mesmos não diminui a curiosidade, ao contrário aguça.

A resposta é que as histórias não só encantam como seus personagens cativam os telespectadores. Há quem prefira que tal personagem mesmo "mau" se dê bem porque gosta do ator ou atriz enquanto outros querem um "castigo" bem trabalhado para o mesmo "porque ele ou ela só fizeram o mau".

A realidade é que tanto como na obra As Mil e Uma Noites bem como nas Telenovelas Brasileiras o mítico-folhetinesco interage com o imaginário popular, a curiosidade pelo desenlace das tramas supera a capacidade ainda interpretativa dos estudiosos do complicado espírito humano. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

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